Wikimedia Brasil e recursos educacionais abertos

Heloisa Pait, Everton Zanella Alvarenga e Raul Campos Nascimento

    



A Wikimedia Brasil é um grupo de voluntários que promove a produção e a difusão colaborativa e inclusiva de conhecimento no Brasil, seja em português, línguas indígenas ou outras línguas. Ela atua de forma autônoma por meio de mutirões pelo conhecimento livre, desenvolvendo atividades on e offline como cursos, workshops, palestras, textos e entrevistas colaborativas. Abordaremos aqui a visão de três colaboradores do movimento Wikimedia. A primeira parte foi escrita por uma professora universitária, seguida pelo depoimento de dois voluntários ativos da Wikimedia, sobre como eles se envolveram com projetos para a construção colaborativa do conhe­cimento livre, e descobriram a importância dos recursos educacionais abertos em suas vidas.

 

Uma nova universidade: do construtivismo digital ao ensino global

Heloisa Pait

Revista em quadrinhos

Eu era criança quando meu pai viu na minha revistinha em quadrinhos o anúncio de um curso de desenho industrial por correspondência. “Eu fiz esse curso!”, ele disse. Seu entusiasmo não combinava com a revistinha colorida. Foi aqui que meu pai aprendeu o que ele sabe?! Fiquei parada, esperando uma explicação, com medo de dizer algo inapropriado. E se ele tivesse mesmo estudado por correspondência? Meu pai leu meus pensamentos. “Esse curso fui eu que criei!”, ele explicou. Alívio. Não foi aí que ele deixou de ser meu herói. E nem depois.

É estranho pensar que uma criança já tivesse concepções, envolvendo hierarquia e prestígio, de escolas “de verdade” e por correspondência. Mas era assim. Todas as coisas que meu pai fazia e dizia, aquele mundo enorme de ideias que cabia em sua cabeça, vinham daqueles quadrinhos amarelos da propaganda em papel-jornal? Não fazia sentido. Meu pai tinha livros grandes, recebia revistas estrangeiras, não podia ser. E, de fato, não era.

Como é que pensamos a escola? Quais são nossas concepções, nossas expectativas quanto a esse espaço? Como nos posicionamos com relação aos “cursos por correspondência” de hoje? Esse ensaio é um convite à reflexão que também oferece algumas informações sobre o papel dos novos meios de comunicação no ensino superior.

O livro e a internet

O melhor meio de comunicação inventado para o ensino é o livro. Portátil, perene, prenhe de informações. Um bom livro. Cria um elo fantástico entre o professor que o leu, e provavelmente o releu, e o aluno que, por meio dele, é introduzido num mundo novo – velho para nós. Quem já disse obrigada por uma indicação bibliográfica sabe do que estou falando. Quem já recebeu um agradecimento, também. “Professora, quando a senhora falou que o texto do Tarkovski era belo, eu resolvi ler. De fato, é um texto de uma beleza incrível.” Aí se cria um elo forte entre nós, entre nós e o livro, e portanto entre nós e o mundo.

É possível ensinar sem livros, e entre os gregos havia o receio de que ele deturpasse o processo pedagógico. Mas eu pessoalmente vejo no livro uma dádiva para o professor, algo precioso. Estranho não verem no livro um meio de comunicação, terem esquecido tudo o que ele nos dá trazendo coisas de outros lugares e tempos – a essência de um meio de comunicação. Que se há de fazer? Parece que o Iêmen era tão pobre que algumas crianças aprendiam a ler de ponta-cabeça, pois dividiam o livro entre vários alunos, cada grupo de um lado.

Vamos dar um grande salto agora do livro ancestral aos cursos por correspondência da era industrial, passando pelos telecursos de meados do século XX para chegarmos à internet.

O que a internet traz de novo? Em primeiro lugar, um volume de informações impressionante, mesmo para locais servidos por pobres biblio­tecas. Hoje, de qualquer universidade brasileira, um estudante tem acesso a centenas de periódicos acadêmicos estrangeiros, além de enciclopédias gerais e de temas específicos, como a Wikipedia ou a Stanford Encyclopedia of Philo­sophy, bases de dados sobre economia e população, imagens históricas e ar­tís­ticas das mais variadas. Se essa oferta toda dá água na boca de uns, outros podem se ressentir pela perda do monopólio da informação na universidade.

Construtivismo digital

Como depósito de textos e imagens, a internet é um “livrão”. Mas ela propõe também uma forma de comunicação distinta, e, nesse sentido, volta para um passado anterior ao livro, restabelecendo a prioridade da conversa entre professor e aluno. A internet possibilita que se crie, em plataformas virtuais, uma sala de aula. Exemplifico com duas iniciativas, entre as várias que aparecem ao redor do planeta, como exemplos do que acredito serem dois momentos distintos da relação entre a educação superior e a internet. A primeira é o software livre Moodle, criado pelo australiano Martin Dougia­mas e lançado no início dos anos 2000, que virou febre no Brasil na metade da década passada. A segunda é o MITx, iniciativa atual da importante univer­sidade tecnológica americana, baseada em sua experiência com o MIT OpenCourseWare, que já tornou pública boa parte do material didático de cursos regulares da universidade.

O Moodle é uma plataforma didática inspirada no método construtivista; na prática, isso quer dizer que ele oferece vários formatos de fóruns de discussão numa arquitetura muito simples. É o equivalente tecnológico dos bloquinhos de madeira com os quais crescemos: liberdade, simplicidade. Existem dezenas de outros softwares, pagos e gratuitos, cheios de firulas ou solenes, mas o Moodle, por ser simples e gratuito, espalhou-se pelos quatro cantos do mundo, sendo usado não apenas para cursos à distância, como também para apoio às aulas presenciais. Alguns concorrentes do Moodle são o novo Canvas, com um bonito desenho; o Teleduc, criado na Unicamp; e o Blackboard, pago mas muito popular no exterior. Funcionam como um Orkutezinho, uma rede social local, aberta apenas para um grupo definido de pessoas e com um objetivo muito específico: um curso. Ou seja, o material de um aluno (ou do professor) de um curso não está disponível para alunos de outros cursos. Nesse sentido, é como uma sala de aula, pois essas plataformas permitem uma certa privacidade, uma demarcação do espaço.

O Moodle favorece a interação entre alunos e professores, assim como uma sala de aula com carteiras em círculo ou uma grande mesa quadrada central também o fariam. Pois, mesmo que o professor tenha um papel privilegiado na plataforma, ele aparece como um igual, escrevendo, comen­tando, debatendo. O professor se coloca. Sua avaliação fica mais transparente, ainda que não pública. No Moodle, os alunos percebem a própria construção do conhecimento, pois seus passos ficam registrados, assim como os de seus colegas, à medida que elaboram projetos, erram e acertam, compartilham conquistas, se encantam com textos, tiram dúvidas sobre conceitos, e também choram notas, questionam o professor e fazem todas as coisas que fariam – e fazem – numa sala de aula presencial.

O Moodle alarga a sala de aula sem desprotegê-la: ainda é um bastidor, um espaço reservado de busca e de aprendizado, onde inseguranças e traba­lhos incompletos podem ser expostos sem medo do ridículo. Falando em ridí­cu­lo, o Moodle não impede que o curso continue sendo apenas uma decoreba infernal de clichês; tudo vai depender do professor, dos alunos e da instituição onde estão. Mas, no Moodle, isso tudo fica bem pequeno, patético. Usado exclusivamente, sem aulas presenciais, exige interações com voz, seja por vídeos ou conversas, mas ainda assim já oferece uma sala de aula no que esta tem de mais essencial: um lugar de encontro entre professor e aluno.

Em resumo, o Moodle e seus similares pegam a sala de aula e a expandem, mas ainda localmente. Em meus cursos, por exemplo, abro a sala para alunos da Unesp de todos os campi. Poderia abrir para todo o Brasil, imagino. Mas ainda há barreiras para ir muito além. Como um angolano ficaria sabendo de meu curso na Universidade Agostinho Neto? O Moodle aumenta a sala de aula, traz alguns conceitos democráticos de ensino, mas não há uma radical transformação da sala de aula, ou ao menos não há uma radical transformação para aqueles cursos já inspirados em métodos de ensino democráticos.

Ensino global

Uso o Moodle desde 2004, nos EUA e no Brasil; meus cursos são criados pensando no sistema semanal da plataforma. Já sobre o MITx, sei apenas o que li nas páginas do Massachusetts Institute of Technology e vi em seu curso piloto; talvez muito do que eu escreva aqui sejam meus sonhos de ensino projetados na iniciativa. Mas o conjunto das opções de ensino global, tanto presencial, com a inauguração de vários campi de universidades americanas no exterior; quanto à distância, como o iTunes U da Apple, uma plataforma comercial para oferecimento de cursos, ou o Udacity, uma empresa criada por professores para oferecer cursos globalmente, apontam na direção que traço aqui. No mais, fiquemos na expectativa de novos desdobramentos.

O MITx promete colocar à disposição os cursos regulares oferecidos no MIT em uma plataforma virtual livre, que poderá no futuro ser desenvolvida colaborativamente. Esses cursos seriam completamente abertos aos alunos regulares da universidade, e parcialmente abertos para o público em geral. Até aí, é o que tenho feito em meus cursos de Marília, oferecendo a opção à distância para alunos de extensão. Mas a plataforma do MITx poderia ser adotada por outras universidades e instituições, e os próprios cursos poderiam ser adotados por outros professores. Seria a perfeita integração entre ensino e extensão, pois naturalmente os cursos do MIT estariam servindo a uma comunidade mais ampla. Por sua atividade pioneira, o MITx promete se tornar um laboratório de aprendizagem online.

Muitas universidades têm programas de extensão, nos quais um certo conhecimento é estendido a populações locais, presencial ou remotamente. Em muitos destes programas, há uma hierarquia entre, digamos, doadores e receptores de informação. O projeto do MIT, ao que parece, pode ser visto como mais um desses, ou como uma quebra deste paradigma: professores de universidades estrangeiras poderiam se juntar ao projeto de

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tal forma que uma verdadeira colaboração se forjasse; tudo dependeria da abertura e da curiosidade de mestres e discípulos. Alunos de um curso de literatura latino-americana nos Estados Unidos poderiam, por exemplo, fazer virtualmente uma disciplina de literatura brasileira na Unesp. Ou, ao contrário, um aluno de uma disciplina de teoria política na Unesp poderia cursar virtualmente uma disciplina sobre teoria constitucional no Canadá. Para os estudantes a gama de cursos disponíveis, especialmente sobre assuntos específicos, aumentaria brutalmente. Mas para professores e instituições, a mudança também seria radical. Um professor poderia oferecer cursos livres fora do rígido esquema institucional desde que encontrasse – ou oferecesse – um servidor para a plataforma, com critérios de inscrição e aprovação. Talvez isso marque a volta do Privatdozent, professor que recebe remuneração por matrículas de cursos oferecidos, e não por aulas ou por mês, arranjo comum nas universidades alemãs do passado. Esses novos professores independentes recrutariam seus alunos globalmente, uma vez que não encontrariam barreiras institucionais – e não teriam que ir a tanta reunião. Quem aceitaria esses “créditos” soltos? Quem tivesse mais interesse no aprendizado dos alunos do que na manutenção de pequenos poderes. Ou quem sabe inventás­semos um sistema cooperativo de avaliação de cursos e professores…

Instituições pequenas poderiam ter suas faculdades, oferecendo cursos específicos sem ter a obrigação de “cumprir toda a grade”. O Museu do Futebol, por exemplo, poderia chamar o Roberto DaMatta – ou mesmo o Pelé – para dar um curso sobre a história do futebol. Professores – ou simples conhecedores do assunto – brasileiros e argentinos poderiam juntos dar um curso sobre a imigração calabresa na América Latina, que talvez não tenha muitos interessados em uma universidade específica, mas que certamente encontraria público na região como um todo. Um médico, em vez de de jogar golfe e tempo fora, poderá ensinar como administrar um hospital para seus parceiros em Luanda. Isso para não falar do gênio indiano que nunca conse­guiu terminar seu PhD, mas que tem muito para ensinar.

As possibilidades são infinitas, mas quero ressaltar aqui a mudança qualitativa no modo como pensamos o ensino, do Moodle ao MITx. Seja com a centralização proposta na iniciativa comercial da iTunes U, seja em iniciativas mais focadas na prática cotidiana do ensino, como a do MIT, existe uma concentração de esforços e de informação que não havia com a dispersão no Moodle. Digamos que todos os cursos da plataforma MITx, oferecidos pelo MIT ou por outras instituições, apareçam listados: as colaborações poderão aparecer entre alunos e professores com muita facilidade, pois eu vou saber quem está dando um curso que complementa o meu. Além disso, não demorará muito para um Kayak da educação lançar um mecanismo de busca que rastreie o MITx, a iTunes U, o Udacity e novas iniciativas educacionais. Essa agregação das possibilidades do ensino global mudará radicalmente o ensino superior: professores e alunos vão passar a pensar o próprio aprendizado como algo global. Nossos assuntos, especialmente nas ciências humanas, ganharão vida. Daremos cursos não mais “sobre” algo, mas “com” alguém, seja o tema a história persa, os índios da cidade de Manaus ou a legislação sobre bioética na França.

A sala de aula

E a sala de aula? A sala de aula é um lugar mágico, para onde o mundo é trazi­do e de onde ele sai transformado quando toca o sinal. É um lugar de emba­te político, entre uma geração que o apresenta, confiante ou desgostosa, e outra que o recebe, com desejo de repará-lo ou recusando-o com indife­rença. Não digo político no sentido arendtiano, de criação entre iguais; nem no sentido vulgar, de batalha ideológica. Mas sim político no sentido mais visce­ral do termo, que expressa um esforço de entender o mundo como é e a partir daí imaginar como ele poderá ser. A sala de aula é um lugar de sonho e, por­tanto, um lugar de grande peso. Tem gente que passou a vida toda na uni­versidade e nunca teve uma aula, pois atrás das grades curriculares se en­cer­­ram ideias, sonhos e desejos. Esses terão sempre medo do mundo virtual, por apego ao sistema prisional que lhes é conhecido. Já nós, alunos de Richard Feynman, sabemos dos muitos lugares onde se pode ensinar. Até em prisões.

No fim das contas, meu pai não havia aprendido tudo o que ele sabia por correspondência, é verdade. Mas ele tinha orgulho de ter criado um curso a distância. De ter passado adiante coisas que sabia para pessoas que não conhecia, que fariam coisas bacanas das quais ele não teria notícia. De ter sido, em outras palavras, professor.

 

O Sonho de uma biblioteca infinita

Everton Zanella Alvarenga, o Tom.

Até hoje lembro da mudança do colégio privado para o público, aos meus doze anos, quando o padrão econômico da minha família mudou bruscamente. Banheiros muito sujos, impossíveis de se usar. Um esquema totalmente diferente dentro das salas de aula, onde em vez de aulas de história em que líamos e interpretávamos os livros, tínhamos que decorar perguntas e respostas que a professora passava na lousa. Isso acabou resultando na minha primeira nota vermelha – nunca fui bom em memorizar coisas –, seguida de um choro. Um choro e uma bronca. Bronca de uma coleguinha de sala, pois ela, com dezoito anos, certamente me achava um bocó por estar chorando por causa de uma nota vermelha. Essas são algumas das diferenças que fui percebendo ao longo do tempo em que convivia, nesse novo mundo, com coleguinhas de níveis sociais diferentes daqueles que eu conheci na bolha do colégio particular. Mas o que mais me chamou atenção foi a falta de uma biblioteca no colégio, das feiras de ciência e das feiras do livro.

Nos dois colégios particulares em que havia estudado, durante algumas aulas de literatura, tínhamos a oportunidade de entrar na biblioteca e explorar novos livros e novos autores, além dos obrigatórios. As feiras de livros eram muitos instigantes também, com salas de leitura e outras atividades que aguçavam a curiosidade sobre novos mundos. Da mesma forma, nas feiras de ciência, tínhamos que buscar algo novo nos almanaques, nas enciclopédias – naquela época só existiam as impressas – e nas revistas de divulgação científica – na década de 1980, existia uma boa revista de divulgação científica no Brasil, a Superinteressante, que infelizmente teve sua qualidade piorada drasticamente com o tempo, tornando-se uma revista de variedades. Eram, para mim, alguns dos momentos mais divertidos do ano, principalmente a feira de ciências, onde junto com os amigos da escola desenvolvíamos projetos que exploravam temas científicos, para depois mostrar para todos os colegas do colégio e pais dos estudantes aquilo que tínhamos trabalhado em conjunto. Tudo isso contribuiu muito para que, depois, eu optasse pelo estudo da física durante a faculdade.

Esse cenário aberto à exploração, que instigava a curiosidade, pouco encontrei nos dois colégios públicos em que estudei, apesar dos esforços de alguns professores para desenvolver atividades interessantes, mesmo com uma infraestrutura limitada. Lembro de ter descoberto por acaso, durante o colegial, uma pequena biblioteca pública em Pinheiros, durante a caminhada diária para o ponto de ônibus ao voltar para casa. Em nenhum desses colégios tive contato com uma biblioteca, nem tive o estímulo por parte dos professores para frequentar uma biblioteca pública. Exceto quando, uma vez, fui fazer um trabalho para o curso técnico em edificações na biblioteca da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, o que serviu para eu descartar a vontade de fazer engenharia ao acompanhar as conversas dos estudantes, e ficar seguro que o que queria estudar era física.

A importância de uma biblioteca pública e do acesso aos livros só ficou clara para mim quando, de fato, entrei na faculdade, no curso de física da Universidade de São Paulo. Lembro de meu espanto e admiração ao entrar na biblioteca do Instituto de Física. Eram tantos livros, mas não só isso. Eram livros interessantíssimos, de assuntos pelos quais eu estava apaixonado na época, e era possível passar dias e mais dias circulando por lá e não se acabaria o tanto de novidades para aprender.

Ao longo da graduação, descobri outras bibliotecas dentro da Universidade. A da Química, que eu usava para estudar quando tínhamos aula de laboratório; a da Escola de Comunicação e Artes, onde eu também podia ouvir música clássica, enquanto lia um jornal ou folheava um livro de arte; a da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, uma biblioteca com diversos andares, um mundo que vim a descobrir um pouco mais tarde, quando comecei a sentir falta de alguns assuntos além das ciências naturais pelos quais tinha interesse.

Essas foram minhas experiências com bibliotecas, ou com a falta delas, nas escolas que frequentei. Até o começo da faculdade, não fazia ideia do que era a internet e do que ela propiciaria em relação ao acesso à informação. O meu espanto com as bibliotecas da universidade foi o maior, pois os livros estavam lá, para quem quisesse ler, tudo aquilo era real e acessível para quem estava lá dentro. Mas a ficha em relação à revolução que a internet causaria só caiu al­guns anos mais tarde, quando comecei a estudar para meu mestrado em fí­si­ca de partículas, em 2003, e meus resultados de busca acabavam, muitas ve­zes, em páginas de um site chamado Wikipédia, com muitos verbetes em inglês.

Aquilo ainda era tudo muito novo para mim e eu nem imaginava o processo colaborativo entre milhares de usuários que estava por trás da elaboração daqueles textos enciclopédicos. Eu não havia parado para pensar quem é que colocava todo aquele conteúdo, o que me lembrou uma pergunta recente de uma professora do Instituto de Física da Universidade de São Paulo, onde estudei: “é mesmo, os artigos da versão em inglês são muito melhores que os em português. Quem é que edita os artigos da Wikipédia?” Não saber o trabalho voluntário de milhares de editores por trás da cons­trução da Wikipédia deve ser algo comum, pois é realmente difícil de acre­ditar que um projeto dessa natureza se autossustente.

Lembro até hoje, ainda enquanto estudante de graduação, o dia em que minha orientadora de iniciação científica me perguntou a idade da Terra. Respondi que era por volta dos cinco bilhões de anos. Em seguida fui questionado sobre a incerteza dessa medida, coisa que não tinha ideia. Na hora ela consultou algum mecanismo de busca (o Google ainda não era o gigante dominante de hoje, então, pode ter sido o Yahoo ou a Altavista) e abriu o artigo da Wikipedia “Age of the Earth“, no qual constava o dado de 4,5 bilhões de anos, com uma incerteza de 1%, e as explicações e fontes de onde a informação havia sido extraída.

Enquanto descobria a Wikipédia, experimentei algumas edições como anônimo de poucos artigos em que achava erros, fazendo pequenas corre­ções. Uma palavra errada aqui, um ponto final ou uma vírgula faltando ali. Nada muito elaborado. Isso durante a metade do mestrado, por volta de 2003 e 2004. Só vim a me registrar no site e começar a ler melhor sobre suas políticas em 2006, na mesma época em que estava com a ideia fixa de criar uma rede social na Universidade de São Paulo para o compartilhamento de informações científicas e educacionais, o que resultou no projeto Stoa[1]. No processo de construção desse projeto, exploramos diversas tecnologias que facilitavam uma maior colaboração para a produção de conhecimento, como blogs, nos quais cada pessoa tinha um espaço para se expressar; um sistema de gerenciamento de cursos; e uma plataforma que permitia a construção colaborativa de verbetes, no estilo wiki da Wikipédia.

O principal objetivo do Stoa era disponibilizar livremente todo o co­nhe­cimento transmitido nas salas de aula da maior universidade do país, ins­pirado no que vinha sendo feito havia anos pelo Massachusetts Institute of Tech­nology pelo OpenCourseWare, que já tinha online muitas aulas e recursos educacionais. Essa iniciativa da universidade americana se espalhou pelo mundo, em muitas universidades, algumas delas consideradas entre as me­lho­res, começando a divulgar seus recursos educacionais através da internet. Apesar dessas iniciativas ao redor do mundo, ainda são poucas as uni­ver­sidades no Brasil que aderiram à ideia de divulgar livremente seus cursos online, até mesmo nas instituições de ensino financiadas por dinheiro público.

Antes de contar como vim a conhecer o movimento Wikimedia, do qual já fazia parte, num certo sentido, por causa do meu envolvimento com a Wikipedia, vamos ao relato do Raul Nascimento, outro voluntário da Wikimedia Brasil que viu os recursos educacionais como uma porta de entra­da para um mundo mais amplo.

 

A Wikipédia e seu poder de mudar a vida das pessoas de forma individual e coletiva

Raul Campos Nascimento

A Wikipédia realmente mudou minha vida. Venho de uma família pobre financeiramente. E ainda hoje tenho dificuldades. A Wikipédia e os projetos da Wikimedia Foundation me proporcionaram riqueza intelectual, e, graças a eles, vislumbro um futuro mais justo e mais inteligente para o nosso planeta.

Conheci a Wikipédia a “inventando” de certa forma. Tive a ideia de disponibilizar livros comunistas, mais especificamente obras de Karl Marx, por achar que eles nos libertariam da alienação – ainda acredito que a superestrutura e o aparato ideológico nos impedem de superar a dominação de uma classe sobre a outra. Não somente os livros de Karl Marx, mas todo o conhecimento humano é importante para isso. A Wikipédia que eu estava “inventando” era um projeto chamado Oráculo Lira, que consistia inicial­mente em um e-mail para o qual as pessoas postavam livros comentados (usando o recurso chamado “inserir comentários” em processadores de textos), atua­lizando os livros com novas versões de forma coletiva. O Oráculo Lira teve alguns contribuidores iniciais e

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seguia em frente. Os comentários no texto serviam para que o usuário não precisasse ser um universitário ou um especialista para ler os livros (minhas leituras sempre foram dificultadas por meus problemas financeiros, comprava livros em sebos e em lugares baratos, nunca pagava mais do que R$ 10 em um livro). E, paralelamente, o método também evitava distorções, já que dava acesso aos originais, permitindo ao leitor tirar suas próprias conclusões.

Outra motivação deste projeto é que eu estava cansado de conversas com pessoas que se baseavam no senso comum. Dava a impressão de que eu estava perdendo minhas energias inutilmente. Com esse projeto, eu disse­minaria o conhecimento para quem quisesse, de forma livre e acessível, sem impor minhas ideias. No processo de desenvolvimento, conheci o movimento Linux, seu jeito de agir e sua licença. Era isso o que eu queria. Pouco depois, procurando o código para mais acessibilidade, conheci a Wikipedia. E, então, mergulhei nela, que era basicamente tudo o que eu estava projetando, só que mil anos luz à frente.

Comecei a editar e me apaixonei pelo tema da cultura livre. Editava principalmente os artigos relacionados ao marxismo e anarquismo, e um pouco de tudo. Hoje, acredito que ela solucione várias lacunas e problemas que eram – e, de certa forma, ainda são – o centro do debate entre os mar­xistas e anarquistas. A Wikipédia é uma prova de que a autogestão é possível, de que a colaboração é mais funcional do que o individualismo capitalista concorrencial. Ela mostra que a democracia direta não só é possível enquanto melhor solução para os problemas do nosso mundo, como também soluciona o problema de vanguarda dos marxistas, porque transforma todos em protagonistas e enfrenta o problema de alienação. Um projeto livre e partici­pativo demonstra que todos têm o poder de entender sobre o processo.

A Wikipédia mudou minha vida materialmente: ela me fez acreditar ainda mais no poder do conhecimento. Eu a utilizei como plataforma de estudos e de ensino, sendo produtor e consumidor ao mesmo tempo. Se o capitalismo e a sociedade de classes se sustentam no monopólio e na propri­edade privada, e se estamos entrando na sociedade do conhecimento, ele ganha cada vez mais valor. Este novo “meio de produção” pode ser muito mais fácil e eficazmente socializado. E é isso que a Wikipedia vem fazendo: com­partilhando o conhecimento – chave na economia atual.

Por isso, apesar de já ter quase sido demitido por editar demais na Wikipedia, insisto no compromisso de compartilhar o conhecimento que venho conquistando. O valor do conhecimento é imensurável. E dele depende a riqueza de nossa sociedade.

 

O movimento Wikimedia no Brasil

Everton Zanella Alvarenga, o Tom.

As atividades do projeto da Universidade de São Paulo, que ajudei a construir para a disponibilização de recursos educacionais online, mostraram com clareza a importância do acesso livre ao conhecimento gerado dentro de uma instituição de ensino superior. As dificuldades para implementá-las também. Talvez, por causa da pouca tradição no Brasil em compartilhar publicamente o “conhecimento gerado” dentro da própria instituição, a resis­tência em convencer docentes e estudantes a usar essa plataforma online era enorme. E a isso se somava a barreira tecnológica do sistema, princi­palmente para aqueles que usam computadores para atividades mais simples, como a troca de emails e leitura, não para a criação de conteúdo.

Apesar da pouca adesão ao Stoa, se pensarmos nos mais de cinco mil professores e de 80 mil estudantes da universidade, alguns membros passaram a usar o sistema em suas salas de aula, compartilhando suas experiências e ideias por meio dos blogs, fóruns de discussão e da wiki da universidade. Alguns cursos e conteúdos originais criados dentro desse sistema fizeram com que muitas pessoas além dos muros da universidade chegassem até a nós pelos mecanismos de busca da internet. Desde professores de universidades dos mais diversos estados do país até profissionais de muitas áreas do conhecimento que hoje exercem suas atividades e tiveram algum contato com essa escola no passado. Como exemplo, houve o caso de uma professora de uma universidade dos Tocantins pedindo autorização para usar em suas aulas o conteúdo de uma disciplina de física disponibilizado no sistema. O objetivo do projeto havia sido alcançado.

Dentre esses inúmeros contatos feitos por meio do projeto Stoa, um deles foi o Thomas de Souza Buckup, que por volta de 2008 contactou di­versas iniciativas ao redor do país relacionadas a recursos educacionais aber­tos. Foi aí que soube da ideia incipiente sobre a criação do capítulo brasi­leiro da Wikimedia Foundation, instituição independente que promove os objetivos da organização americana sem fins lucrativos, que almeja um mundo em que cada ser humano tenha livre acesso à soma de todos os conhecimentos.

A partir de uma conversa com o Thomas, o professor Ewout ter Haar, coordenador de projeto da Universidade de São Paulo, e meu amigo Alexandre Abdo, ótimo contribuidor e hoje figura fundamental dentro do movimento Wikimedia no Brasil, começou meu envolvimento com os volun­tários da enciclopédia colaborativa, que viria a se configurar nos mutirões pelo conhecimento livre.

Diversas pessoas envolvidas na produção de conhecimento livre firmaram essa rede para criação da Wikimedia Brasil, hoje parte do movi­mento Wikimedia, promovendo a produção e a difusão colaborativa e inclu­siva de conhecimento no país, seja em português, nas indígenas ou em outras línguas. A participação no movimento é aberta a todos, observando o respeito à Carta de Princípios, que inclui os seguintes valores: o sonho de unir precede a iniciativa de afastar; o gesto de compartilhar precede o interesse de apro­priar; a liberdade de criar precede a possibilidade de controlar; a vontade de ouvir precede o ato de falar; e o desafio de compreender precede a oportu­nidade de criticar. Repeitamos ainda princípios de liberdade, acessibilidade e qualidade, abertura e autonomia, independência e transparência.

Por causa desse maior envolvimento no movimento Wikimedia, tomei conhecimento de outros projetos Wikimedia menos difundidos, como a Wikiversidade, plataforma para cursos online livres; o Wikilivros, um con­jun­to de manuais e textos livres; o Commons, repositório de áudios, vídeos e imagens livres; e muitos outros projetos, que, na minha opinião, ainda são bastante incipientes, mas muito promissores para a produção colaborativa de recursos educacionais abertos. Uma enciclopédia, livros e manuais, áudios, vídeos e imagens, citações e dicionários de várias línguas, uma biblioteca, notícias, um diretório de espécies e cursos online, tudo isso acessível livre­mente pela internet e construído por voluntários de todo o mundo.

Questiona-se muito a qualidade desse material em língua portuguesa produzido por voluntários, principalmente quando comparamos com as versões desses projetos em algumas línguas das quais o número de falantes e o nível de instrução médio da população é maior que o da nossa. Mas o desafio está lançado: o de envolver mais e mais voluntários na construção desse grande repositório de recursos educacionais livres e, quem sabe num fu­turo não muito distante, com uma altíssima qualidade. Impossível não é. É por isso, também, que estamos cada vez mais trabalhando com educadores e universidades. Aprofundar e melhorar o conteúdo de nossa Wikipedia é fun­da­mental para que o conhecimento livre seja cada vez mais qualificado e diverso.

São inúmeros os projetos em andamento, dos quais qualquer um pode participar. Todos, sem exceção, podem contribuir de alguma forma. Seja promovendo o compartilhamento de uma foto, uma música, uma entrevista, um poema ou alguma material didático; ou ajudando na organização e envolvimento dos mutirões pelo conhecimento livre. É maior a respon­sabilidade das pessoas que tiveram acesso a uma melhor educação e aos escassos recursos educacionais na língua portuguesa. Se você faz parte do grupo que sonha com um mundo em que todos tenham livre acesso a recursos educacionais abertos de qualidade, seja bem-vindo e junte-se a nós em http://br.wikimedia.org.

 

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Everton Zanella Alvarenga

Voluntário da Wikimedia Brasil desde 2008, participa dos projetos da Wikimedia Foundation desde 2004 e trabalha como consultor do programa de educação no Brasil da Wikimedia Foundation, que visa ampliar o número de editores da Wikipédia através do uso pedagógico da enciclopédia em salas de aula universitárias. Coordenador de comunidades da Open Knowledge Foundaton no Brasil. De forma bastante geral, tem interesse por ciência, filosofia, educação e política. Entusiasta do movimento por uma cultura livre, com mais envolvimento atualmente com no movimento Wikimedia, no movimento de software livre e no movimento por um governo aberto. everton137@gmail.com

Heloisa Pait

Heloisa Pait foi bolsista da Comissão Fulbright e atualmente é professora de sociologia da UNESP de Marília. Sua tese de doutorado, defendida na New School for Social Research, em Nova York, trata dos desafios individuais diante da comunicação mediada. Agora ela investiga a participação de brasileiros, e em especial dos jovens, na nova esfera comunicativa global. Como educadora, Heloisa busca formar cidadãos aptos a pensar de modo autônomo e a expressar suas idéias na vida pública. Heloisa escreve para o público não-especializado sobre mídia, cultura e política. Seu livro de ficção On Books and Men acaba de ser publicado pela editora online TheWriteDeal. heloisa.pait@gmail.com | www.marilia.unesp.br/helopait

Raul Campos Nascimento

Estudou sua infância no interior do Estado de São Paulo, aos dezoito anos se muda para Guarulhos com um grande sonho de estudar em uma universidade. Cursa um ano de História mas abandona por dificuldades financeiras, estuda mais um ano de direito e na sequência seu estudo é interrompido por um grave acidente. Hoje é estudante de História na Universidade Federal de São Paulo, EFLCH. Trajetória é marcada pela falta de recursos financeiros e trabalho intenso, sempre acompanhado de intensas leituras de Marx, dos marxistas, anarquistas e filósofos em geral; do contato com partidos políticos de esquerda, movimentos sociais, e ativismo nos inúmeros movimentos populares e de cultura livre. Voluntário da Wikimedia Brasil desde 2008, Wikipedista desde maio março de 2007 e atualmente professor voluntário de História e Ética e Cidadania em dois cursinhos comunitários em Guarulhos. Entusiasta no Movimento de Software Livre e no processo de conhecimento livre como construção de um mundo colaborativo autogestionado, com mais oportunidades para os menos favorecidos. rautopia@hotmail.com

  1. [1] Stoa é uma rede social dos estudantes, professores, funcionários e ex-membros da Universidade de São Paulo (USP) – exceto um dos autores desse capítulo. Os objetivos do Stoa são promover uma maior interação entre os membros da comunidade USP, criar um espaço onde cada pessoa dentro da Universidade tenha uma identidade digital de fácil acesso, tanto para quem está dentro da USP, quanto para a comunidade externa, e fornecer um sistema de softwares que facilite aos professores a administração de seus cursos para os estudantes, promovendo a produção de recursos educacionais abertos e a cultura colaborativa. Um dos objetivos iniciais do Stoa era estimular a Universidade de São Paulo a criar uma política para entrar no Open Course Ware Consortium, o que não ocorreu até o momento.

                                                      

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