Recursos educacionais abertos na aprendizagem informal e no autodidatismo

Rafael Reinehr

    



“O objetivo da educação é aprender, não ensinar.”
Russel Ackoff



A maior parte das pessoas tem seus insights e constrói conhecimentos e competências fora da escola, da universidade ou de outros espaços formais de aprendizagem. Se competências fora da escola, da univer­sidade ou de outros espaços formais de aprendizagem. E uma boa parte do que aprendemos na escola, esquecemos rapidamente ou se mostra inadequado, ou obsoleto, em um curto espaço de tempo.

De forma aparentemente paradoxal, uma das maneiras mais eficazes de aprender é ensinar. É sempre quem ensina que apreende e aprende mais, de forma permanente. É aquele aprendizado que fazemos por gostar de um determinado assunto. É aquele no qual nos aprofundamos quando precisaremos dele na prática, para nosso uso diário ou para transmitir para mais alguém que fica indelevelmente “colado” em nossa memória.

Todos já experimentamos os dois lados da moeda: quando somos obrigados a estudar um determinado tema ou matéria para adquirir algum tipo de graduação imposta pelo sistema no qual vivemos, e quando escolhe­mos aprender algo pelo bel prazer de saber mais sobre aquele assunto. E todos lembramos da sensação que experienciamos em uma e em outra situação.

Além disso, a educação compulsória se comporta como uma loteria compulsória, em que alguns ganham, mas a maioria perde, pois o mercado de trabalho não absorve a totalidade dos estudantes e, se não bastasse, a Indústria do Diploma exige que cada vez mais seja necessário um grau mais alto para conseguir os mesmos resultados. Isso tudo faz com que muitas pessoas abandonem o monopólio da educação pelas instituições formais, em busca de formas alternativas de aprendizagem.

Estas perspectivas criam novos tipos de aprendizes. São desbravadores natos de Recursos Educacionais Abertos (REA). São os navegadores do éter universal em busca de informação, que é transformada em conhecimento, e de conhe­cimento que pode ser transmutado em sabedoria.

Esses novos e intrépidos visionários ou excluídos são a vanguarda de um movimento que ainda dá seus primeiros passos, mas já chega aos milhões. São aqueles que, inspirados pelo chamado de Illich, se deram conta de que “somente uma revolução cultural e institucional que restabeleça o controle do homem sobre o seu ambiente pode erradicar a violência pela qual o desenvolvimento das instituições agora é imposto por alguns poucos para o seu próprio interesse[1]“.

Podemos aprender de duas formas: “batendo a cabeça”, por conta própria, aproveitando inclusive nossos erros como aprendizado; ou, alter­nativamente, aprendendo o que os outros querem que aprendamos. No primeiro caso, enveredamos para o autodidatismo, para o alter-didatismo e para formas de educação mais informais ou não-formais. No segundo caso, escolhemos a educação formal, por todas as ofertas vistosas que ela nos faz – e cumpre – caso sejamos escolhidos pelo toque de Midas.

Os REA na Educação não-formal e no autodidatismo permitem, entre outras coisas, a transformação de todos os lugares em uma escola. Não uma escola na acepção comum do termo, como um espaço em que professores e alunos se dividem hierarquicamente para, então, ocorrer a transmissão de conteúdo. Mas uma escola na qual prepondera o aprendizado distribuído, em que cada indivíduo é, ao mesmo tempo, um educador e um aluno, um aprendente. Existe um estímulo para se aprender com as coisas, com os lugares, com as pessoas (com todas as pessoas).

Como estabelecido na Carta das Cidades Educadoras, em Barcelona, 1990, e depois ratificado em Bologna, em 1994[2]:


Primeiro, investir na educação de cada pessoa, de maneira que esta seja cada vez mais capaz de exprimir, afirmar e desenvolver o seu potencial humano, assim como a sua singularidade, a sua criatividade e a sua responsabilidade. Segundo, promover as condições de plena igualdade para que todos possam sentir-se respeitados e serem respeitadores, capazes de diálogo. Terceiro, conjugar todos os fatores possíveis para que se possa construir, cidade a cidade, uma verdadeira sociedade do conhecimento sem exclusões, para a qual é preciso providenciar, entre outros, o acesso fácil de toda a população às tecnologias da informação e das comunicações que permitam o seu desenvolvimento.

Segundo os princípios que derivam da Carta das Cidades Educadoras, utilizar a cidade como suporte para o aprendizado é um dos caminhos viáveis para nos tornarmos aprendizes de uma vida inteira. Partindo do conceito de uma cidade digital, em que todos tenham acesso livre à internet e às suas ferramentas educativas, vamos além e recorremos a outros instrumentos de aprendizagem que podem e devem ser abertos, como museus, bibliotecas, roteiros turísticos, turismo comunitário e científico, acesso a laboratórios e centros de pesquisa, centros culturais, gastronômicos, oficinas e todos espaços em que o saber pode ser cocriado pelos indivíduos.

Muito do que se vê como educação ainda é derivado de um princípio centralizador, homogenizador, e como transmissão de conhecimento de cima para baixo. Em contraposição a este paradigma, surge o conceito de Edupunk, inspirado na cultura do faça-você-mesmo[3].

Derivam ou estão associados a este conceito uma série de noções cujo escopo deste artigo não permite aprofundar, mas que merecem ser citadas para fins de pesquisa ulterior: educação democrática, aprendizado auto­direcionado, educação centrada no estudante, desescolarização, escola livre anarquista, aprendizagem livre, educação popular, pedagogia crítica, pe­dagogia libertária, entre outros. Termos pouco ou nada abordados na educação formal.

Neste caminho e nesta luta pelos REA em todas as instâncias, acadêmicas, formais e não-formais, estamos sempre em busca de uma socie­dade mais convivial. Como afirma Illich em Tools for Conviviality: “Uma sociedade convivial é uma sociedade que oferece ao homem a possibilidade de exercer uma ação mais autônoma e mais criativa, com auxílio das ferramentas menos controláveis pelos outros[4]“. E é justamente neste espaço – o social – que acontecem as interações que nos caracterizam enquanto humanos. E é fora da lógica do ensino pré-formatado que acontecem as verdadeiras possibilidades de evolução. É no exercício da autonomia que se aprende a ser humano e não uma peça de uma maquinaria construída para servir a alguns. É na consciência da liberdade que podemos exercer a singularidade, e não sermos normalizados pelos processos massificadores da educação, que vêm de cima para baixo, que servem para produzir “catálogos” de seres humanos para serem escolhidos por empresas e corporações, com a finalidade de auferir lucro em vez de produzir felicidade, bem-estar e qualidade de vida. Em última instância, é disso que tratam, também, os recursos educacionais abertos: possibilitar a qualquer pessoa que queira ter acesso a materiais, métodos, ferramentas e informações relacionadas àquilo que se deseja aprender.


Um bom sistema educacional deve ter três propósitos: dar a todos que queiram aprender acesso aos recursos disponíveis, em qualquer época de sua vida; capacitar a todos que queiram partilhar o que sabem a encontrar os que queiram aprender algo deles e, finalmente, dar oportunidade a todos os que queiram tornar público um assunto a que tenham possibilidade de que seu desafio seja conhecido[5].

Avançando no pensamento de Illich, ele escreve, no início da década de 1970, que a mais radical alternativa para a escola seria uma rede ou um sistema de serviços que desse a cada homem ou mulher a mesma oportu­ni­dade de partilhar seus interesses com outros, motivados pelos mesmos interesses.

Hoje em dia, temos tecnologia mais do que suficiente para fazer chegar, a qualquer pessoa do mundo que esteja interessada em aprender, conteúdo gratuito por nossos sistemas de comunicação, caso haja essa vontade por parte de quem regula o acesso a essas ferramentas comunicacionais.

As universidades, como tuitou recentemente Pierre Lévy, já não têm mais o monopólio do conhecimento, têm apenas do diploma. Como nos lembra Augusto de Franco, o conhecimento não pode mais ser aprisionado, e os caminhos para ele são múltiplos[6]. Essa noção de que o aprendizado pode e deve ser distribuído, participativo e ativo está presente no conceito de MOOCs, ou Massive Open Online Courses[7].

Os MOOCs são Cursos Onlines Abertos fornecidos para dezenas, centenas ou milhares de pessoas ao mesmo tempo, por meio de uma pla­taforma online. É um curso que estimula a participação. É distribuído e fomenta o aprendizado continuado em rede durante a vida. De certa forma, é uma forma de se conectar e colaborar em um ambiente digital, e ao mesmo tempo se engajar em um processo de aprendizado. É um evento em que as pessoas que se interessam por um dado tópico se reúnem em torno do mesmo para falar dele, debater, trocar experiências e conhecimentos.

Todas as discussões realizadas, o material produzido e o acesso ao curso são gratuitos.

O curso é distribuído, e todas as postagens de blog, de fóruns, respostas de vídeo, artigos, tweets e tags são colocadas em rede para criar o curso. Não há um “caminho certo” entre todos estes dados para fazer o curso, todos os caminhos são válidos e o aprendiz define qual o melhor caminho para si.

Algo que já foi descoberto pelos pesquisadores das redes, mas ainda não é percebido pelo senso comum, é que o poder não reside nas instituições, nem no estado, nem mesmo nas grandes corporações. Ele está localizado nas redes que constituem a sociedade. Essa descoberta, quando organizada de forma biopolítica, mudará a configuração do que hoje conhecemos como sociedade, e o grande motor para esta mudança está jus­tamente no aprendizado distribuído[8] [9].

George Siemens, um dos postulantes da teoria do Conectivismo, afirma que a educação formal é irrelevante para o aprendizado significativo, pois para que ele ocorra é necessário estar envolvido de forma ativa com o pro­cesso de aprendizado[10]. Ao mesmo tempo em que é inegável o quanto a abordagem positivista e reducionista e o método científico contribuíram para o conhecimento que hoje temos das coisas, da mesma forma, é inegável a falta de controle e a incapacidade desta mesma abordagem em religar todo este conhecimento em uma forma sistêmica e inteligível para grande parte da humanidade. A fragmentação do saber e a sua inacessibilidade se tornam mais uma moeda de troca na sociedade do conhecimento. Avançamos rapi­damente para a noção de que o conhecimento não está mais tanto nos livros ou nas instituições, mas sim nas pessoas com as quais nos rela­cionamos. Elas são o verdadeiro repositório dos saberes essenciais à nossa vida. Estamos experienciando, de forma acelerada, uma retribalização digital de nossas existências, nas quais as conexões que temos – e a riqueza dos saberes nelas contidas –, e não o que sabemos de imediato, enquanto indi­víduos, repre­sentam a verdadeira riqueza e sabedoria que podemos carregar conosco.

Vejamos a seguir alguns ótimos exemplos de como o mundo está sendo moldado por experimentos educacionais abertos nos mais variados campos de conhecimento humano.

• Repositórios de saberes

Wikipedia [11]

A Wikipedia é, talvez, o melhor exemplo de como se pode produzir um con­teúdo de forma cooperativa e mantê-lo acessível ao público, de forma livre e sustentável. Ela é um projeto de enciclopédia multilíngue livre baseada na web, colaborativa e apoiada pela organização sem fins lucrativos Wikimedia Foundation. Possui 19 milhões de artigos (712.851 em português em 06 de fevereiro de 2012), que foram escritos de forma colaborativa por voluntários ao redor do mundo, e quase todos os seus verbetes podem ser editados por qualquer pessoa com acesso ao site. Em maio de 2011, havia edições da Wiki­pedia em 281 idiomas. Ela foi lançada em 15 de janeiro de 2001 por Jimmy Wales e Larry Sanger, e se tornou a maior e mais popular obra de referência geral na internet, além de ser utilizada em todo o mundo como referência pa­ra pesquisa escolar, a despeito das críticas sobre a acurácia de seu conteúdo[12].

Knol[13]

Knol é uma enciclopédia na internet, projeto da Google, cujo conteúdo é gerado pelos utilizadores, e com tópicos que variam de “conceitos científicos a informação médica, de informação geográfica e histórica a entretenimento, de informação sobre produtos a instruções genéricas”. Foi anunciada publi­camente em 13 de dezembro de 2007. As páginas do Knol pretendem “ser a primeira coisa que alguém que procure pelo tópico pela primeira vez vai querer ler”, de acordo com Udi Manber, vice-presidente da área de engenharia na Google. O termo knol, cunhado pela Google para significar “unidade de conhecimento (knowledge)”, refere-se tanto ao projeto quanto a um artigo no projeto. O site tem sido visto como uma tentativa do Google para competir com a Wikipedia. No dia 1º de maio de 2012, o Knol foi descontinuado, para que a Google possa priorizar produtos de maior impacto.

Uma das suas características principais era a de que cada um dos artigos ou knols fosse criado e escrito completamente pela mesma pessoa. O nome do autor está destacado no artigo, algo que em outras enciclopédias online como a Wikipedia não ocorre. A Google acreditava que isso poderia incentivar a redação de knols por parte de especialistas nos temas, e que esses alcançariam uma qualidade aceitável com poucas edições. Adicionalmente, permitia que múltiplos artigos ou knols pudessem ser criados para um mesmo tópico, o que estimularia o desenvolvimento dos mesmos em termos de competência, para aumentar a qualidade.

A redação de knols completos e de qualidade era estimulada porque a comunidade de leitores podia comentar, avaliar, fazer perguntas e propor conteúdo adicional para os enriquecer.

O Google não atua como editora, já que a ideia e a responsabilidade pelo conteúdo de cada artigo cai por completo sobre o autor, que desta forma põe a sua reputação em jogo ao redigi-lo.

MERLOT[14]

A MERLOT é uma comunidade online gratuita e livre de recursos destinados primariamente para estudantes de ensino superior compartilharem seus materiais pedagógicos e de aprendizagem. É uma plataforma centrada no usuário, organizada por meio de coleções ou temas. Dispõem também de artigos revisados pelos próprios usuários, materiais de aprendizagem online que são catalogados pelos mesmos se registrados e revisados por uma equipe indicada por uma Comissão Editorial, com vistas a garantir a qualidade do material compartilhado.

Khan Academy[15]

A Khan Academy é uma organização sem fins lucrativos criada e sustentada por Salman Khan. Com a missão de “fornecer educação de alta qualidade para qualquer um, em qualquer lugar”, oferece uma coleção grátis de mais de 2.800 vídeos de matemática, ciência, ciências humanas, economia, física, entre outras matérias. Em 2010, a Khan Academy ganhou US$ 2 milhões do projeto 10^100 do Google e US$ 1,5 milhões da Gates Foundation, para ampliar os tutoriais e traduzi-los para outras línguas, sendo que muitas delas estão sendo traduzidas para o português. No Brasil, quem valida as traduções é a Fundação Lemman.

Atualmente, oferece ferramentas de gamificação, premiando os estudantes por aprenderem os conteúdos, bem como fornece aos usuários e também aos professores ferramentas para acompanhar o andamento dos alunos. As aulas apresentadas podem ser usadas tanto em um ambiente formal de educação quanto em um sistema de educação domiciliar, ou mesmo de forma completamente independente e autodidata.

Banco Internacional de Objetos Educacionais[16]

Este Repositório possui objetos educacionais de acesso público, em vários formatos e para todos os níveis de ensino. Os objetos podem ser acessados isoladamente ou em coleções.

Nesse momento o Banco possui 16.082 objetos publicados, 2.220 sendo avaliados ou aguardando autorização dos autores para a publicação, e um total de 2.665.657 visitas de 170 países.

Apesar de ter sido desenhado para auxiliar a educação formal, nada impede que seja usado por qualquer indivíduo para buscar conhecimentos de forma autodidata. O banco de dados possui conteúdos em diversos formatos: animação/simulação, áudio, vídeo, hipertexto, experimento prático, imagem, mapa e software educacional. Pode ser pesquisado em vários idiomas e também por nível de ensino.

Appropedia[17]

A Appropedia é uma wiki criada com o objetivo de apresentar soluções colaborativas nas áreas de sustentabilidade, tecnologias apropriadas e redução da pobreza. Ao mesmo tempo, ela é uma plataforma de autoaprendizagem acerca das técnicas ali apresentadas.

Na Appropedia se pode aprender sobre técnicas de bioconstrução, conservação de alimentos, extração de óleos vegetais em pequena escala, produção doméstica de energia, fogões solares e outras técnicas e soluções de fácil reprodutibilidade.

• Repositórios do tipo “aprenda a fazer por sua própria conta”:

Instructables[18]

O Instructables é uma plataforma de documentação online em que pessoas compartilham o que fazem e como fazem, além de aprenderem e colaborarem com outros. Nele, você encontra tutoriais detalhados em texto, imagens e pdfs sobre como fazer de quase tudo, desde um chapéu “Ataque de um Tubarão”[19], passando por um delicioso Onde-Onde (sobremesa típica da Malásia)[20] até a técnica para construir um gerador eólico que produza 1.000 W de potência[21].

Shred Academy[22]

A Shred Academy é um exemplo bem específico de como o autodidatismo pode se espalhar por várias áreas do conhecimento. Neste caso específico, a Shred Academy especializou-se em ensinar ‒ com vídeos de alta qualidade, bastante detalhados e com ótima didática ‒ sobre como se deve tocar guitarra.

Vários guitarristas-professores voluntariam seu tempo para compar­tilhar seus conhecimentos, em aulas que variam desde os conceitos mais básicos sobre tons e escalas até conhecimentos avançados, que há uma década só teríamos acesso pela aquisição de complicados métodos de música ou de aulas particulares com professores ou conservatórios musicais.

Lifehacker[23]

O site do Lifehacker é uma coleção de dicas, truques e materiais para download sobre como fazer as coisas de uma forma eficiente para melhorar a vida. É um site para a turma do faça-você-mesmo, o coração da aprendi­zagem informal e do autodidatismo.

Um local para aprender desde “como encontrar comida comestível e água potável na cidade”, passando por “como permanecer seguro durante um desastre”, até “como começar a entrar em forma com 20 minutos por dia”.

• Bibliotecas livres

AAAAARG.ORG[24]

A AAAAARG é uma plataforma de conversação que funciona como uma escola, como um grupo de leituras e como um jornal, dependendo de como você interage com ela. Foi criada com a intenção de desenvolver um discurso crítico fora de uma estrutura institucional. Entretanto, ela é construída em cima das arquiteturas já existentes, ou seja, ela se apropria de publicações e construtos já publicados, e os utiliza de forma a liberar espaços e instâncias de comunicação e saber.

Em outras palavras, utiliza-se todo e qualquer tipo de conteúdo que seus membros julgam apropriados para a autoaprendizagem, e se apropria deles, independentemente de possuírem ou não copyrights. Em função disso, o antigo site aaaarg.org foi fechado por determinação judicial, surgindo em seu lugar quase instantaneamente o aaaaarg.org, ainda disponível online e crescendo. Talvez seja uma das melhores bibliotecas de literatura crítica atualmente disponíveis, com conteúdo na íntegra.

The Anarchist Library[25]

Uma biblioteca online que visa compilar todo conteúdo digitalmente disponível no que diz respeito a livros, ensaios, histórias e artigos sobre o pensamento anarquista. Utiliza somente softwares livres e formatos abertos, além de oferecer uma ferramenta chamada de Book Builder, que permite aos usuários criarem seus próprios livros com o conteúdo que selecionarem da biblioteca.

• Ambientes e plataformas que favorecem a livre aprendizagem online

UDEMY[26]

Udemy é a “Academia de Você” (“youdemy“, de you+academy, em inglês). Ela possibilita que qualquer pessoa possa aprender ou criar cursos online. O objetivo da plataforma é democratizar a educação e permitir que qualquer pessoa possa aprender com especialistas renomados ou autoentitulados, e também compartilhar seu conhecimento. Os professores ou instrutores podem usar vídeos, slideshows, pdfs, áudio, arquivos zip e aulas ao vivo para construir um curso e compartilhar seus conhecimentos.

Os estudantes podem fazer cursos dentro de áreas variadas como negócios e empreendedorismo, artes, saúde, línguas, música, tecnologia, economia e outros.

A maior parte dos cursos é gratuita, mas alguns são pagos, e o valor varia entre US$ 5 e US$ 250.

The Faculty Project[27]

Professores de várias universidades renomadas terão seu conhecimento compartilhado gratuitamente a partir deste projeto. Todos os cursos serão gratuitos, com inscrições abertas para qualquer um que tenha uma conexão à internet, via computador, tablets ou smartphones.

Os cursos são dados

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por vídeos ou slideshows narrados pelos professores, e contam com uma ferramenta de comentários, um fórum e um sistema de avaliação das aulas, possibilitando a interação entre os usuários e os instrutores.

Academic Earth[28]

O Academic Earth foi criado para levar conhecimento gerado dentro de Universidades pelo mundo para todas as pessoas. Aulas tradicionais, dadas dentro das universidades, são registradas em vídeo e compartilhadas como REAs para quem tiver acesso ao portal. Universidades como Berkeley, Columbia, Georgetown, Harvard, Michigan, MIT, Princeton, Stanford, UCLA e Yale estão entre algumas que fazem parte do projeto.

Assim como em tantos outras iniciativas que estão liberando conteúdo gratuitamente pela internet, no Academic Earth se perguntaram quais são as barreiras que impedem uma educação global de qualidade. Para resolver a questão, propuseram-se a construir um ecossistema educacional que possi­bilite aos usuários pelo mundo a encontrarem facilmente, interagirem e aprenderem com cursos e aulas em vídeo de professores de grandes universidades. Seu objetivo é concentrar em um lugar este conteúdo, e criar um ambiente que seja muito fácil de usar, e no qual as contribuições dos usuários tornem o conteúdo existente cada vez mais valioso.

P2PU[29]

A P2PU é um ambiente de aprendizagem online em que podemos aprender com outras pessoas, de forma gratuita.

Na P2PU as pessoas trabalham juntas para aprender um tópico em particular, completando tarefas, observando e avaliando trabalhos individuais e em grupo, e oferecendo uma retroalimentação construtiva.
Ela tenta fornecer um modelo de estudo continuado apesar e além da educação formal terciária, utilizando a internet e materiais educacionais amplamente disponíveis online.

Em 2010, foram oferecidos alguns cursos em língua portuguesa, como Introdução ao Pensamento de Paulo Freire, Civil Hacking e Cidadania em Redes Digitais, todos elaborados pela Casa de Cultura Digital.

OCW – Open Courseware

OpenCourseWare, também identificado com a sigla OCW, é um termo aplicado aos conteúdos gerados pelas universidades e compartilhado livremente para todos pela internet. O movimento OCW foi liderado pelo MIT[30] em outubro de 2002 pelo lançamento do MIT OpenCourseWare[31].

A partir deste movimento do MIT, várias outras universidades começaram a criar os seus próprios projetos OCW. Hoje já existem mais de 200 universidades do mundo trabalhando neste novo conceito de liberar o conhecimento gerado na academia para todos. Uma perfeita socialização do conhecimento, disponibilizando-o para professores, alunos e autodidatas do mundo todo.

De acordo com o OCW Consortium[32], solicita-se que alguns requisitos de uso sejam seguidos, tais como:

• Não se pode ter fins comerciais;

• Deve-se incluir uma referência à instituição que o publica originalmente e, caso seja procedente, o nome do autor do material;

• O material resultante do uso do OCW deve ser livre para utilização por terceiros e ficará sujeito a estes mesmos requisitos.

O MIT OCW[33] é uma plataforma que fornece gratuitamente anotações de aulas, provas e vídeos do MIT. Não requer nenhum tipo de registro para acessar e é aberto ao mundo.

Oferece materiais de cursos dados no MIT que refletem quase todos os assuntos de graduação ensinados no MIT, sem no entanto oferecer qualquer tipo de grau ou certificação, tampouco acesso às dependências das faculdades do MIT ou ao conteúdo completo dos cursos. Permite a cada usuário que acompanhe os materiais no seu próprio ritmo.

Segundo informações do próprio MIT, cada curso que é publicado requer um investimento de US$ 10 a 15 mil para compilar o material, garantir um licenciamento adequado para o compartilhamento aberto e formatar os materiais para distribuição global. Cursos com materiais em vídeo custam cerca de duas vezes mais.

No Brasil, a FGV[34] é a primeira instituição de ensino brasileira a apre­sentar um projeto OCW.

Seguem algumas referências de alguns dos diversos OCWs disponíveis atualmente:

MIT OpenCourseWare,
FGV OpenCourseWare,
Unicamp OpenCouseWare,
OCW Universia,
Stanford University OpenCourseWare,
Utah State University OpenCourseWare,
Tufts University OpenCourseWare,
Delft University of Technology OpenCourseWare,
Academic Earth,
OER Commons,
Students for Free Culture,
Promoting Free Online Education,
Learning Social Network,
UMass Boston OpenCourseWare,
ESAGS – Escola Superior de Administração e Gestão,
UNISUL – Universidade do Sul de Santa Catarina,
Universidade de Sorocaba,
Universidade Federal Rural de Pernambuco

Essa tendência parece só estar crescendo. Cada vez mais universidades estão oferecendo cursos de forma livre e gratuita. Recentemente, foi publicada uma lista com mais de 400 cursos gratuitos disponíveis[35], oferecidos por universidades de renome, em áreas tão diversas como arqueologia, arqui­tetura, arte e história da arte, economia, cinema, geografia, história, jor­na­lismo, direito, saúde pública, literatura, música, filosofia, ciências polí­ti­cas, relações internacionais, sociologia, astronomia, química, medici­na, biologia, ciências da computação, inteligência artificial (e a lista não para).

iTunes U[36]

O iTunes U é um serviço da Apple que permite a educadores desenhar e rea­lizar cursos completos em áudio, vídeo, livros, apresentações, pdfs, livros em for­mato epub e outros conteúdos, e distribuí-los de forma gratuita para ser aces­sados por estudantes e aprendizes de todos os lugares, por meio de aplicativos para os produtos da Apple e, mais recentemente, para produtos Android.

Os cursos podem ter um índice, quizzes e outros questionários. O material enviado é hospedado pela Apple e disponível a qualquer um com acesso à web. O material pode ser compilado de seu arquivo pessoal, da in­ter­net ou de um bando de dados da própria iTunes U, incluindo mais de 500 mil arqui­vos em áudio e vídeo de museus, universidades, instituições cul­turais e outras fontes.

Atualmente já se encontram cadastrados materiais de universidades como Stanford, Yale, Oxford e Berkeley, entre outras e de instituições como o MoMA e a Biblioteca Pública de Nova York.

• Ambientes e plataformas que favorecem a livre aprendizagem presencial

School of Everything[37]

A “Escola de Tudo” é mais uma plataforma que permite a professores, orga­nizações e indivíduos compartilharem conhecimento, muitas vezes de forma gratuita e outras de forma paga.

Não existe nenhum tipo de parâmetro pré-estabelecido, e podem ser encontradas aulas sobre assuntos tão variados quanto ioga, artes marciais e criação de joias. Entretanto, diferente de outros sites, ela não é uma plataforma de e-learning, ela apenas facilita o encontro de pessoas, funcio­nando como um ponto de encontro entre quem quer aprender e quem tem algo a ensinar, promovendo encontros reais entre as pessoas.

Ao se cadastrar, o usuário informa quem é, quais são os seus interesses e o site ajuda a encontrar professores e aulas perto de onde cada pessoa mora. Da mesma forma, o site auxilia professores a acharem alunos para aquilo que gostariam de ensinar.

A inspiração para a Escola de Tudo foi a Free U, na Califórnia. Reza a lenda que, em 1960, um grupo de pessoas colocou uma folha em branco em um quadro de notícias perguntando o que as pessoas poderiam ensinar, e uma vez que os assuntos foram listados e existiam pessoas suficientes para cada um dos assuntos disponíveis, eles organizavam as aulas.

Totalmente de acordo com o espírito do autodidatismo e do aprendi­zado informal, eles acreditam:

1. Que todos têm algo a ensinar,

2. Que todos têm algo que podem ensinar a alguma outra pessoa,

3. Que todos têm sua própria forma de aprendizado,

4. Que é melhor aprender da forma que gostamos. Nós sabemos o que nos cai melhor,

5. Aprender é melhor com amigos,

6. As pessoas são brilhantes, inspiradoras, generosas e espertas. Estar com outros torna mais fácil e divertido aprender mais,

7. Você não deve parar nunca de aprender,

8. Você pode continuar aprendendo independentemente da sua idade, muito além de seus dias de escola,

9. A educação não deve ser cara,

10. Com um pouco de ingenuidade, você pode aprender coisas novas sem gastar toneladas de dinheiro,

11. Todos os sujeitos são importantes,

12. Aprender é aprender, e aprender é bom. Saber como consertar um plug é tão valoroso quanto entender funções trigonométricas inversas,

13. Qualificações são supervalorizadas,

14. Uma boa educação tem a ver com as coisas que você aprende pelo caminho, não um pedaço chique de papel,

15. O mundo real é melhor do que a internet,

16. Afaste-se do seu computador, por favor. Sair e tentar coisas novas é melhor do que ficar sentado em frente ao computador o dia inteiro.

Trade School[38]

Na “Escola das Trocas”, cada conhecimento passado é trocado por algo que pode ser oferecido. É também um exercício prático de economia solidária, em que se pratica a sabedoria, o respeito mútuo e a natureza social das trocas.

Ao invés de simples permutas entre produtos e coisas, a Trade School favorece trocas entre conhecimento e coisas ou serviços. O primeiro ciclo de aulas aconteceu em março e abril de 2010, e mais de 800 pessoas participaram de 76 aulas, que variaram de como iniciar uma compostagem a como viver sendo um ghost writer. Em troca das instruções, os professores receberam de tudo um pouco, desde sapatos de corrida, CDs e queijo cheddar.

Em resumo, é um espaço de convivência em que o conhecimento é o centro das atenções, mas em que as pessoas se reúnem em torno dos interesses e paixões comuns que compartilham com outros.

The Public School[39]

The Public School é uma escola sem currículo. Bastante inspirada no modelo de teias de aprendizagem proposto por Ivan Illich, ela funciona da seguinte forma: primeiro, as aulas são propostas pelos usuários (eu quero aprender isso, ou eu quero ensinar aquilo); então, as pessoas podem se cadastrar para as aulas (eu também quero aprender isso); e, finalmente, quando pessoas sufici­entes tiverem expressado seu interesse, a escola acha um professor e oferece uma (ou mais de uma) aula sobre o assunto proposto para aqueles que se cadastraram. Funciona, assim como a School of Everything e a Trade School, no nível local, com encontros presenciais.

A The Public School não é uma escola acreditada, não fornece diplomas, não tem afiliação com o sistema educacional formal. Apenas é uma plata­forma que dá suporte a atividades autodidatas, operando de acordo com a assunção de que tudo está em tudo.

Atualmente, existem instâncias da The Public School em Berlim, Bru­xelas, Durham, Los Angeles, Nova York, Helsinque, Filadélfia e San Juan. Muito aprendizado pode ser tomado a partir das referências deixadas nos comentários das aulas propostas e seria muito interessante se os encontros e os grupos de estudo fossem registrados em formato de áudio ou vídeo.

Nós Vc[40]

O Nós.vc é uma plataforma de intermediação de aprendizagem, parecida com o The Public School, entretanto com a intermediação organizada pelos admi­nis­tradores do site e os cursos pagos pelos usuários que querem aprender algo. Para inaugurar a tendência, cunhou-se o termo crowdlearning, ou seja, uma plataforma que agrega pessoas com interesses de aprendizagem comuns e tem seu desejo atendido por meio da plataforma.

• Ambientes de cocriação de saberes

Adote um parágrafo[41]

Adote um parágrafo foi um projeto aberto, desenvolvido por Juliano Spyer, para traduzir para o português e disponibilizar na rede textos sobre comunicação e internet.

A ideia foi inicialmente proposta pelo Twitter em 24 de março de 2009 como um experimento. No dia seguinte, os 31 parágrafos estavam traduzidos e, o texto, pronto para ser publicado. Essa wiki é uma continuação dessa pro­posta, para verificar se é possível fazer essas traduções regularmente e criar um repositório online (aberto, obviamente) desse conteúdo.

No momento encontra-se parado, mas pode ser reativado ou replicado.

• Ferramentas de busca e agregação

Class Central[42]

Class Central é um agregador dos OCW disponíveis em Stanford, MIT e na Udacity, com o intuito de centralizar a oferta de cursos e facilitar ao aprendiz a escolha do que ele realmente deseja cursar. Como todos os demais, não oferece nenhum tipo de crédito universitário, apenas conhecimento gratuito advindo de uma universidade conceituada.

• Ambientes de inspiração

TED[43]

O TED é uma organização sem fins lucrativos dedicada a Ideias que merecem ser espalhadas. Iniciou-se em 1984, como uma conferência, fazendo convergir pessoas de três mundos: tecnologia, entretenimento e design. Desde então seu foco se tornou cada vez mais amplo e, além das duas conferências anuais ‒ que ocorrem em Long Beach e Palm Springs a cada primavera, e de mais uma conferência global que ocorre em Edimburgo a cada verão ‒, o TED possibilita a criação de TEDx, eventos descentralizados organizados sob o mesmo modelo de conferência, com cerca de 18 minutos ou menos para cada apresentador falar sobre sua ideia, seu projeto ou sua vida.

Todas as apresentações são, então, compiladas. É feita uma tradução em várias línguas e disponibilizada na forma de legendas, juntamente com os vídeos, que são distribuídos sob uma licença Creative Commons BY-NC-ND, de forma que possam ser compartilhados e postados em outros lugares.

TED-Ed[44]

É uma campanha do TED que solicita professores a compartilharem suas melhores aulas. Depois de selecionadas, elas passam por um processo de animação e são aprimoradas, antes de passarem a ser usufruídas publica­men­te. É uma espécie de espaço para capturar e amplificar a voz dos melhores professores do mundo, com a curadoria dos usuários da internet e por todos aqueles interessados em educação, que podem indicar estes professores e difundir suas aulas.

• Comunidades de criação e compartilhamento de recursos educacionais

Le Mill[45]

A Le Mill é uma comunidade internacional dedicada a encontrar, criar e compartilhar recursos educacionais abertos. Funciona como uma rede social e apresenta conteúdos, métodos e ferramentas baseados em REAs.

Escola de Redes[46]

A Escola de Redes é um espaço para aprendizagem sobre redes sociais, re­lações não-hierárquicas e criação e transferência de tecnologias de anima­ção de redes. Como diz Augusto de Franco, seu idealizador: “A escola é a rede”.

A Escola de Redes apresenta uma série de documentos, textos, artigos e livros para download e leitura online, bem como promove discussões e debates sobre assuntos relacionados ao tema redes.

Neste momento, está em processo de instalação de espaços físicos de cocriação, denominados de Dojo-Nave.

Open Source Ecology[47]

O Open Source Ecology é uma rede de fazendeiros, engenheiros e apoiadores que estão desenvolvendo um “Kit de Construção de uma Aldeia Global”. Também chamado de Global Village Construction Set (GVCS), este kit é um plataforma de alta performance modular, de baixo custo, estilo faça-você-mesmo, que permite a fabricação de 50 máquinas industriais diferentes, com o objetivo de construir uma pequena e sustentável civilização com os confortos da modernidade. Entre elas, um scanner 3D, um gerador eólico de 50kW, um modelador de plásticos e um automóvel, todos open source, ou seja, com seus códigos livres para poderem ser replicados a baixo custo.

Nuvem de Soluções[48]

A Nuvem de Soluções é uma rede social criada em torno de um banco de dados de tecnologias sociais e de tecnologias de aprendizagem autônomas, a serem apropriadas por indivíduos, coletivos e organizações, para um processo de mudança social, ambiental e cultural.

Apresenta iniciativas pautadas pelo pensamento convivial e solidário, buscando a criação de capital social e bem comum, gerando justiça social e ambiental, resiliência comunitária e sustentabilidade planetária, por meio do compartilhamento; do aperfeiçoamento e da criação de modelos, técnicas, ferramentas e atitudes que reproduzem os princípios elencados anteri­or­mente; da inovação ambiental e da preservação cultural. Os envolvidos com­partilham os resultados de suas pesquisas, impressões e práticas, além de usarem a rede como ferramenta de comunicação durante a aplicação, em suas comunidades, das estratégias e modelos aprendidos.

E com isso, queremos dizer que…
“Você não pode ensinar nada a ninguém. Você apenas pode ajudá-lo a descobri-lo dentro de si mesmo.”
Galileu Galilei

Os exemplos não param por aí. Poderíamos produzir um livro somente com exemplos de espaços atualmente disponíveis para um ser humano aprender por conta própria ou com auxílio de seus pares, sem necessitar de nenhuma instituição formal. Como toda lista, essa não pretende elencar todas as iniciativas que estão revolucionando a forma de aprender de forma livre e aberta hoje.

Se deseja compartilhar alguma iniciativa que você acredita que deva ser lembrada, fique à vontade para incluir novas iniciativas na página wiki do REA-Brasil[49].

E o futuro? Ao que tudo indica, o novo se transforma, mas não necessariamente substitui o velho. É chegada a vez dos REA, cada vez mais usados e disseminados. A educação se torna construtiva, combinatória e aberta, bem como o seu próprio futuro.

Para ilustrar a dinamicidade do mundo atual, enquanto concluo este texto, em um canto do planeta, Howard Rheingold está tentando organizar a literatura atualmente disponível sobre peeragogy, ou seja, a pedagogia do alterdidatismo, sobre como podemos aprender de forma auto-organizada com nossos pares[50]. Em outro canto, pesquisa-se como um aprendiz escolhe se conectar com outros aprendizes de forma a criar sua rede pessoal de aprendizado[51]. Propostas ainda inovadoras, como a “sala de aula invertida”, ou Flipped Classroom, prometem ser ainda experimentadas, favorecendo uma espécie de reforma ou revitalização do sistema escolar atual[52]. Nesse mo­delo, os alunos aprendem em casa e fazem as atividades e tarefas na esco­la, com uma orientação posterior sobre aquilo que aprenderam. O centro da aprendizagem está nas pessoas, por conta própria, decidirem como as melhores ferramentas para aprenderem por si mesmas, não o professor.

Esses são apenas alguns esboços do mundo que o aprendizado distribuído, em rede, gerido pelos próprios aprendente está ajudando a construir. Uma miríade de possibilidades está nascendo das experimentações autônomas de indivíduos, em uma sociedade cada vez mais conectada, mas também sobrecarregada de informações.

Nunca foi tão difícil realizar um exercício de futurologia e saber o que vem por aí.

Como dito anteriormente, as habilidades necessárias para navegar satisfatoriamente pelo mundo atual não necessariamente passam pelos saberes transmitidos na educação formal. Captar o pensamento emergente, extrair padrões, regras e protótipos das experiências vividas; buscar signi­fi­cados, a verdade, a pertinência, objetivos e metas; interpretar e usar ade­qua­damente os símbolos, sinais, a arte e o design para fazer as coisas e ver além; descrever, definir, elaborar conclusões e explicar os dados; exercitar uma sensibilidade ecológica, a colocação de algo dentro de seu contexto, perceber o sentido das coisas, viver a mudança, ter compreensão do fluxo, a adaptação e a progressão, todas são coisas que podemos apreender sem um aprendizado formal nos lembra Stephen Downes. Mas todos esses saberes e sentires requerem de cada um algo que parece estar em falta nos dias de hoje: atenção e paixão. Foco para definir o que se quer buscar, e o desejo real para se ter a perseverança necessária para conquistar o que se almeja.

Em 1946, Viktor Frankl escreveu seu famoso livro Em Busca do Sentido[53], no qual nos exortava a perceber que, quando não temos um hori­zonte a perseguir, é muito mais fácil quedarmos às vicissitudes da vida, e a ale­gria e o contentamento em viver mais facilmente dão lugar à apatia, à tristeza e mesmo ao desespero. É talvez nesse sentido que Eduardo Galeano se refere à busca das utopias, aquelas instâncias do viver e do sonhar que nos fazem voar alto e nos fazem sentir vivos e humanos:


A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.

E é também nesse sentido que temos que entender os recursos educa­cionais abertos: como uma ferramenta de aprendizado em constante diálogo com a natureza e com os construtos da humanidade. Inextricavel­mente ligados, seguem em um processo histórico e dialógico que não pode ser congelado ou encerrado em matérias, campos de conhecimento estáticos, disciplinas e outras categorizações artificiais que estão longe de conseguir representar a visão sistêmica e viva do mundo. É tão somente a partir de uma relação sempre aberta, permeável e em rede entre conhecimentos e seres de­sejantes de saber, aprendendo a respeitar a multiplicidade de saberes não formais que se inserem na realidade das relações humanas, que poderemos caminhar juntos enquanto seres sociais que somos.

Há ainda algumas equações a resolver, mas quem sabe o companheiro aí desse lado não tem uma parte da resposta?

 

__

 

Rafael Reinehr

Médico endocrinologista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fundador da Coolmeia, Ideias em Cooperação, uma incubadora de ideias e soluções altruístas (http://coolmeia.org) e netweaver da Rede do Bem Comum (http://coolmeia.org/bemcomum). Fundador do portal O Pensador Selvagem (http://opensadorselvagem.org). Mantenedor do CEHLA – Coletivo de Estudos Humanistas, Libertários e Anarquistas, fundador da DesUniversidade Livre, da AntiEditora e da Rede Mobiliza Araranguá, entre outras iniciativas. Sua paixão e área de pesquisa tem sido o que acontece na intersecção entre a tecnologia, a cultura e o conhecimento, mais especificamente no que diz respeito às redes sociais, a resiliência comunitária e a livre cooperação. r1@reinehr.org | http://reinehr.org

  1. [1] Ivan Illich – Sociedade Desescolarizada – http://reinehr.org/anarquia-e-escritos-libertarios/apontamentos-anarquistas/ivan-illich-sociedade-desescolarizada.
  2. [2] Carta das Cidades Educadoras – http://www.fpce.up.pt/ciie/OCE/docs/Cartadascidadeseducadoras.pdf.
  3. [3] Edupunkhttp://en.wikipedia.org/wiki/Edupunk.
  4. [4] Tools for Convivialityhttp://opencollector.org/history/homebrew/tools.html.
  5. [5] Ivan Illich – Sociedade Desescolarizada – http://www.preservenet.com/theory/Illich/Deschooling/intro.html
  6. [6] Augusto de Franco e Nilton Lessa – Multiversidade – Da Universidade dos anos 1000 à Multiversidade dos anos 2000 – http://www.slideshare.net/augustodefranco/multiversidade-10753463.
  7. [7] MOOC – Massive Open Online Course – http://mooc.ca/
  8. [8] Power does not reside in institutions, not even the state or large corporations. It is located in the networks that structure society – http://www.demos.co.uk/files/File/networklogic17castells.pdf.
  9. [9] Helen McCarthy, Paul Miller, Paul Skidmore – Network Logic – http://www.demos.co.uk/publications/networks.
  10. [10] Conectivismo – http://en.wikipedia.org/wiki/Connectivism.
  11. [11] Wikipedia – wikipedia.org
  12. [12] Wikipedia, pela própria Wikipedia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Wikipedia.
  13. [13] Knol – knol.google.com
  14. [14] MERLOT – merlot.org
  15. [15] Khan Academy – khanacademy.com
  16. [16] Banco Internacional de Objetos Educacionais – objetoseducacionais2.mec.gov.br
  17. [17] Appropedia – appropedia.org
  18. [18] Instructables – instructables.com
  19. [19] Como fazer um chapéu Ataque de um Tubarão – http://www.instructables.com/id/Shark-Attack-Hat/.
  20. [20] Como fazer Onde Onde – http://www.instructables.com/id/Onde-Onde-Malaysian-Coconut-Balls/.
  21. [21] Como fazer um gerador eólico – http://www.instructables.com/id/DIY-1000-watt-wind-turbine/.
  22. [22] Shred Academy – shredacademy.com
  23. [23] Lifehacker – lifehacker.com
  24. [24] AAAAARG.ORG – aaaaarg.org
  25. [25] The Anarchist Library – theanarchistlibrary.org
  26. [26] UDEMY – udemy.com
  27. [27] The Faculty Project – facultyproject.com
  28. [28] Academic Earth – academicearth.org
  29. [29] P2PU – p2pu.org
  30. [30] http://pt.wikipedia.org/wiki/MIT
  31. [31] http://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=MIT_OpenCourseWare&action=edit&redlink=1
  32. [32] http://www.ocwconsortium.org/
  33. [33] MIT OCW – ocw.mit.edu/courses
  34. [34] http://pt.wikipedia.org/wiki/FGV
  35. [35] Artigo com links para mais de 400 cursos online gratuitos – http://www.openculture.com/freeonlinecourses.
  36. [36] iTunes U – apple.com/education/itunes-u
  37. [37] School of Everything – schoolofeverything.com
  38. [38] Trade School – tradeschool.ourgoods.org
  39. [39] The Public School – thepublicschool.org
  40. [40] Nós Vc – nos.vc
  41. [41] Adote um parágrafo – adoteumparagrafo.pbworks.com
  42. [42] Class Central – class-central.com
  43. [43] TED – ted.com
  44. [44] TED Ed – http://www.youtube.com/user/TEDEducation
  45. [45] Le Mill – lemill.net
  46. [46] Escola de Redes – escoladeredes.net
  47. [47] Open Source Ecology – opensourceecology.org
  48. [48] Nuvem de Soluções – nuvem.coolmeia.org
  49. [49] http://bit.ly/reaauto
  50. [50] Literature review of material related to self-organized peer learning (“peeragogy”)http://bitly.com/peeragogy_2012.
  51. [51] Understanding personal learning networks: Their structure, content and the networking skills needed to optimally use themhttp://bit.ly/redesdeaprendizado.
  52. [52] Flipped Classes – http://www.mentormob.com/learn/i/articles-about-the-21st-century-education
  53. [53] Man’s Search for Meaninghttp://en.wikipedia.org/wiki/Man’s_Search_for_Meaning

                                                      

33 comments on “Recursos educacionais abertos na aprendizagem informal e no autodidatismo

  1. Inocencio Macamo on said:

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