Formatos abertos

Sergio Amadeu da Silveira

    



Asociedade informacional é uma sociedade pós-industrial. Pela apli­cação do conhecimento como força produtiva direta, também é de­no­minada sociedade do conhecimento. O sistema sócio-econômico que se consolidou nos séculos XIX e XX como industrial está sendo alterado, dando lugar a um capitalismo cognitivo. Assim, o modo de produção hegemônico vive “a passagem de uma lógica da reprodução a uma lógica da inovação, de um regime de repetição a um regime de invenção” (CORSANI, 2003, p. 15).

As tecnologias de informação viabilizaram a sociedade informacional e se tornaram tecnologias estratégicas, fundamentais em todos os campos: da economia, da gestão, da política, da guerra e da cultura. Alan Kay, um dos pioneiros da computação, considerava que o computador, expressão der­radeira das tecnologias da informação, era uma espécie de mídia expansível, porque os novos usuários poderiam adicionar a ele novas propriedades, bem como poderiam inventar novos meios de comunicação. Para Kay, o computador pode ser chamado de “metameio”, uma vez que seu conteúdo, sua essência, é “uma ampla gama de meios de comunicação já existentes e ainda-não-inventados” (MANOVICH, 2008, p. 36).

O computador é um hardware que necessita de um software para fun­cionar. O software contém as instruções que fazem o computador agir e rea­lizar aquilo que seus programadores desejam. O computador possui um ou mais processadores de informação. A construção da computação eletrônica, na segunda parte do século XX, foi hegemonizada pela conversão das informações em sua forma numérica binária, em dígitos. Desse modo, o digital se tornou a metalinguagem das tecnologias de processamento de in­for­mação. A produção simbólica das sociedades iniciara sua intensa digi­talização. Este é um dos principais fatos culturais do século passado.

A cultura comunicada passou a ser realizada por máquinas de proces­samento, armazenamento e distribuição de informações operadas por soft­wares, utilizando a metalinguagem digital. Todas as linguagens, todas as palavras, textos, imagens e sons captados puderam ser transformados em sua expressão binária ou digital. Nobert Wiener chamou essas tecnologias de cibernéticas, pois são máquinas e processos de comunicação e de controle. Por isso, emerge uma cibercultura como expressão de sociedades de intensa comunicação e intenso controle. Essa cibercultura, em suas fases iniciais, é uma cultura digital, ou seja, de digitalização e enredamento da comunicação.

O sociólogo Manuel Castells (CASTELLS, 1999) defendeu que a morfologia social e as principais formas de organização e de comunicação ocorrem em redes. As tecnologias da informação surgiram também e, talvez principalmente, pelas necessidades comunicacionais do capitalismo. A socie­dade informacional está conectada em redes digitais, por isso, são na verdade sociedades em rede. Estas redes são completamente dependentes de softwares. Softwares são programas compu­tacionais, presentes nos automóveis, no controle das aeronaves, nos aparelhos eletrodomésticos, nos aparelhos de TV digital, nos telefones e nas centrais de telefonia. Cada vez mais as máquinas, aparelhos e instrumentos que uti­lizamos em nosso cotidiano são operados por softwares. Nossa comu­nicação utiliza o software como meio de viabilizá-la. Para Lev Manovich (MANOVICH, 2008), somos a sociedade do software.

Intensidade da comunicação

A comunicação intensa é uma das características culturais das sociedades submetidas à influência do capitalismo ocidental a partir da Segunda Guerra Mundial. As culturas locais são determinantes para a compreensão de comportamentos, valores e visões de mundo. Elas são colocadas em constante contato com outros valores e concepções a partir da aceitação e incorporação dos meios eletrônicos de comunicação. McLuhan chamou de aldeia global essa comunicabilidade, que estaria reduzindo as distâncias do mundo e apro­ximando os homens como se estivessem em uma unidade da tribo.

Ocorre que a proximidade de culturas não parece anular as diferenças, como se divulgou no senso comum. A depender dos contextos políticos, religiosos e econômicos, a proximidade cultural é considerada agressiva e abre espaço para a organização de políticas de isolamento e de combate ao outro. Contudo, é inegável que o localismo globalizado (SOUZA SANTOS, 2002) pode influenciar decisivamente e gerar a adesão a determinados valores e gostos. Principalmente as elites capitalistas locais buscaram se constituir como imagem e semelhança das elites dos centros hegemônicos do sistema socioeconômico.

Se a comunicação de massas trabalhava principalmente a disseminação de conteúdos, a comunicação em rede tratou de disseminar processos e plata­formas de interação. As redes digitais recobriram rapidamente o planeta e entraram na dinâmica econômica das empresas de modo contundente, uma vez que alteram a produtividade ou, pelo menos, dão a impressão de alte­rarem. Um hipermercado que não está informatizado parece ter dificuldade de sobreviver diante de seus concorrentes que controlam contabilidade, administração e estoques a partir de computadores em rede. O sistema finan­ceiro parece ser inviável, mesmo que não seja, caso não esteja com todos os seus segmentos conectados em tempo real, e que permitam aos seus usuários realizarem operações de modo rápido, eficiente e seguro.

As pessoas das sociedades capitalistas ocidentalizadas parecem, cada vez mais, depender dos telefones celulares para viver. O gasto de horas de cada indivíduo na Internet é crescente, principalmente em países que contam com grande assimetria no acesso das populações mais carentes. Não há um recuo do nível de comunicabilidade geral. Os governos se veem impelidos a construírem infraestruturas de conexão das empresas, instituições e residên­cias em redes de alta velocidade de transferência de dados digitalizados. O uso de redes de relacionamento social, as denominadas redes sociais online, atin­giu 70% dos internautas urbanos brasileiros no ano de 2010 (Pesquisa TIC).

Com a digitalização da modulação e transmissão da TV, a principal expressão da comunicação de massas se rende ao mundo das redes informacionais e reforça a convergência digital. O resultado será certamente o fortalecimento da comunicação baseada em softwares. Exceto a comu­nicação face a face; a comunicação pessoal, interpessoal e social media­da por instrumentos será uma comunicação operada por software. Software e comu­nicação em rede dependem de padrões, protocolos e de formatos.

O que são formatos?

A comunicação digital é totalmente dependente de formatos. Formato é um modo específico de codificar a informação para o seu armazenamento e recuperação em um arquivo de computador. Formatos são implementados por softwares. Os formatos de computador ou formatos digitais podem ser fe­chados e proprietários. Isso quer dizer que o código que contém as instruções para o computador salvar e recuperar as informações não é acessível a todos, sendo patenteado ou licenciado em copyright pelo seu desenvolvedor. Quando o formato tem sua codificação aberta e não está submetido a bloqueios legais de uso é chamado de formato aberto. O .doc da Microsoft, por exemplo, é um formato fechado e o .odt é um formato aberto.

Formatos são instrumentos de biopoder. Condicionam e, em algumas situações, determinam nossa comunicação e nossa memorização. Em uma sociedade informacional com o uso intenso de softwares, a formatação do conjunto de informações, bem como nossa memorização torna-se dependente de formatos digitais. Assim, corporações de tecnologia procuram obter ganhos econômicos também a partir do controle dos formatos.

Assim como a arquitetura das cidades expressa as disputas sociais e econômicas pela apropriação e definição dos usos dos espaços, os formatos representam um padrão de uso da tecnologia, que pode ser expressão da monopolização de um dos seus segmentos por corporações, as quais, muitas vezes, passam a aprisionar os seus usuários. O vídeo gravado em um formato proprietário poderá ser aberto apenas pelos softwares de empresas ou comunidades de desenvolvedores que saibam como implementá-lo, seja por terem desenvolvido sua codificação, seja por terem realizado a engenharia reversa necessária a sua leitura e exposição.

Formatos dizem como converter a informação em zero e um, ou seja, em linguagem binária acessível ao computador. A reconversão dessas informações em código binário depende do conhecimento das regras de conversão pelos softwares. Formatos delimitam o que pode ser guardado, como deve ser armazenado, a quantidade de bits necessários para o arqui­vamento e a qualidade de recuperação das informações. Atualmente, existe uma infinidade de formatos de arquivos para diferentes tipos de informação, sendo a maioria incompatível entre si. Isto quer dizer que se um arquivo for salvo em formato Adobe Flash, cuja extensão é .swf, ele somente poderá ser aberto em softwares que possuam um plug-in especial do programa Flash Player, que é um leve aplicativo somente de leitura, distribuído gratuitamente pela Adobe.

A propriedade de um formato de arquivo digital dá ao seu dono tam­bém o controle sobre o software que irá permitir a sua leitura. O formato e o software que permitem o arquivamento e a leitura de informações digi­tais, quando proprietários, são componentes de um processo econômico que po­dem aprisionar os seus usuários. Sem acesso às instruções que compõem a con­versão do formato, ou simplesmente impedido de desenvolver a conversão por proibição legal, o usuário de um formato proprietário teria um grande custo de troca de todos os seus dados para se libertar de uma solução proprietária.

Formatos e memória

Formatos são as definições para o armazenamento de dados digitais. Em uma sociedade de controle (DELEUZE, 1992), que é organizada por tecnologias cibernéticas, os formatos digitais portam um grande poder em relação aos seus usuários. Os formatos podem delimitar, condicionar, controlar, bloquear, aprisionar e criar dependências para cidadãos que os utilizam.

No mundo digital, a memória depende dos formatos computacionais de arquivamento. No período pré-cibernético, um livro impresso em papel ex­pres­sava uma cultura, um momento histórico, as ideias e interpretações de seu autor. O papel de suas páginas era um dos principais suportes da memó­ria de um período. Durante muitos séculos, o suporte da memória dos viven­tes foram o papel e as técnicas de escrita e impressão de ideias, imagens em seus limites.

A memória digital é qualitativamente distinta. Para arquivar um con­teúdo digital é necessário utilizar um software. Do mesmo modo, para acessar um arquivo digitalizado também é preciso recorrer a um programa computacional. Os indivíduos se tornam cada vez mais dependentes de um leque de aparatos técnicos e sistemas informacionais para guardar e resgatar sua produção simbólica. Desse modo, em uma sociedade informacional, a memória digital é formatada e mediada por softwares. Além disso, os formatos digitais criam dependências pouco conhecidas e muitas vezes invi­síveis para a ampla maioria de indivíduos.

Pierre Lévy, ao estudar as dimensões da virtualidade, descreveu a escrita como a virtualização da memória. Também percebeu que a escrita “fez surgir um dispositivo de comunicação no qual as mensagens muito fre­quen­temente estão separadas no tempo e no espaço de sua fonte de emissão” (LÉVY, 38). Todavia, há uma grande diferença quando tratamos da escrita digital, pois o processo de virtualização realizada por programas de computador implicam em tipos de arquivamento chamados de formatos. “O armazenamento em memória digital é potencialização, a exibição é uma realização”, diz Lévy (40). O que ele não buscou observar é o fato da atua­lização dos conteúdos digitalizados se subordinarem as “máquinas de ler” (41), ou seja, os leitores de formatos.

Existe a efetiva possibilidade da leitura direta ou analógica de um texto impresso em uma folha de papel daqui a 50 anos. Todavia, o mesmo texto

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digitalizado somente poderá ser lido se seu formato for conhecido e mantido por pelo mesmos 50 anos. Um software deverá ser capaz de executar ou interpretar o formato que mantém seu conteúdo arquivado.

Existe uma grande diferença entre a leitura direta e a leitura dos formatos. Essa última exige a intermediação de softwares. Por isso, formatos precisam ser abertos com especificações conhecidas, publicadas e acessíveis a todos. Os formatos proprietários possuem extensões que asseguram o direito de apenas um ou alguns softwares poderem abri-los ou lê-los. Os formatos abertos garantem ao indivíduo a liberdade de utilização de quaisquer programas que aceitem abri-los. Não há aprisionamento da memória digital.

Ideologia dos formatos

Jack M. Balkin, professor de Direito Constitucional, foi fundador do Yale Information Society Project (ISP), um centro de pesquisa cuja missão é estu­dar as implicações legais e sociais da internet, das telecomunicações e das novas tecnologias da informação. Em 1998, publicou o livro Cultural Software: A Theory of Ideology. Um de seus argumentos centrais é aqui reproduzido e reapropriado para esclarecer um pouco mais a dimensão social dos formatos digitais.

Balkin (1998) compara o software a uma ferramenta muito especial. Propõe o entendimento do significado da palavra ferramenta em seu sentido mais amplo possível. Em seguida, irá definir o software como uma ferramenta de compreensão e, por isso, ele é completamente diferente de ferramentas como martelos e pregos. Balkin considera que martelos e pregos são fisi­camente separados de quem os criou. As pessoas podem levar um martelo consigo ou deixá-lo em sua casa, mas isso se dá de modo diferente com as ferramentas de compreensão.

As ferramentas de compreensão, que são utilizadas no trabalho hu­mano, tornam-se parte do aparelho de entendimento dos seus usuários, acabam sendo parte deles. Deste modo, Balkin denomina o software como ferramenta cultural, e o considera como algo que usamos para compreender e avaliar o mundo, sendo também parte de nós. Sua concepção paradigmática da atividade humana é técnica e sua visão paradigmática do raciocínio humano é instrumental.

A humanidade também desenvolveu linguagem e outras habilidades sociais como ferramentas. Desse modo, Balkin reconhece a linguagem como a ferramenta cultural por excelência, por isso, considera que nossas habilidades linguísticas não podem ser separadas de nós. Elas são parte de quem somos. Essas habilidades não são projetadas para qualquer finalidade específica, a linguagem é utilizada para todas as finalidades. Além disso, Balkin advoga que o uso da linguagem não é puramente instrumental, pois usamos a linguagem para expressar os nossos valores e interagir com os outros. Finalmente, ele alerta que uso da linguagem não é uma habilidade puramente técnica, é a habilidade social por excelência.

As ferramentas de compreensão em que eu estou principalmente interessado se enquadram nesta última categoria. Elas são internas e inseparável da existência humana. Elas não são necessariamente concebidas para uma única finalidade, mas têm finalidades múltiplas e muitas vezes são a fonte de novos propósitos. Elas não são simplesmente meios para um fim, mas os meios de desenvolver e articular os nossos fins. Softwares são ferramentas de compreensão.
Softwares alteram os horizontes da nossa imaginação, podem abrir ou restringir novas perspectivas, bem como podem mudar a nossa capacidade de experimentar o mundo, mas também, como pensa Balkin em relação a todas as ferramentas de compreensão, eles mudam o mundo que experimentamos. A produção em software, seja de um texto, de uma imagem ou de um áudio é expressa em formatos. Os formatos digitais formatam nossa compreensão daquilo que criamos.

Formatos abertos e fechados

Em abril de 2010, o então líder da Apple, Steve Jobs, divulgou um texto ex­plicando os motivos pelos quais a Apple não poderia utilizar arquivos de extensão .swf (de Shockwave Flash File), ou seja, animações geradas pelo software Adobe Flash. Jobs dizia claramente que era para a Apple não ficar aprisionada à empresa Adobe[1]. No texto, chamado Thoughts on Flash, Jobs afirma que “os produtos Flash da Adobe são 100% proprietários. Eles só estão disponíveis a partir da Adobe e a Adobe tem autoridade exclusiva sobre a sua valorização futura, preços etc.” No mesmo texto, Jobs alerta que “embora os produtos Flash, da Adobe, estejam amplamente disponíveis, isso não significa que eles sejam abertos, pois eles são controlados totalmente pela

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Adobe e estão disponíveis somente a partir da Adobe. Por basicamente qualquer definição, o Flash é um sistema fechado”. Jobs sabia que o padrão aberto é o que garante a liberdade de criação e de ação de usuários e de desenvol­vedores. Padrões fechados colocam os usuários em prisões lógicas que os tornam completamente dependentes dos desenvolvimentos das empresas que os dominam. A argumentação de Jobs aponta os principais obstáculos das soluções proprietárias para qualquer usuário que busque o mínimo de autonomia de decisão sobre suas criações.

O caso ODF (Open Document Format)

Os parágrafos que constam neste item foram retirados quase integralmente de um texto que publiquei na Revista Select, de 1º de dezembro de 2011, intitulado “Guerra de formatos”. Tratam do recente embate entre formatos abertos e fechados, e buscam esclarecer o papel do formato aberto para garantir a interoperabilidade e a compatibilidade de textos produzidos a partir de softwares diferentes.

Para superar as dificuldades da grande incompatibilidade entre os diferentes formatos de documentos digitais, foi criado o ODF, Open Document Format. Lançado pelo consórcio Organization for the Advancement of Struc­tured Information Standards (OASIS) e baseado na linguagem XML, o ODF é aberto e pode ser aplicado por todo e qualquer software de escritório para armazenar textos, planilhas, bases de dados, desenhos e apresentações. Foi apro­vado como norma ISO, em 2006, tornando-se um padrão aberto inter­nacional. A finalidade do ODF é superar o aprisionamento lógico que um formato proprietário pode construir. Independentemente do software utili­zado para produzir um texto, ao salvá-lo em um formato ODF, ele poderá ser aberto em qualquer programa editor de texto. Deste modo, adquirimos maior autonomia e independência em relação à empresa que desenvolveu o editor que permitiu salvar o arquivo. Além disso, o padrão e o formato aberto estimula a competição entre desenvolvedores de software em cima de um mesmo conjunto conhecido de especificações.

O governo brasileiro apoiou a aprovação do ODF na ISO e incentivou que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) o adotasse. Mas a Microsoft percebeu que o formato aberto anularia com o passar do tempo sua estratégia de fidelização (conforme os publicitários) ou aprisionamento (para os economistas e sociólogos) de usuários, pois ao terem que que utilizá-lo em seus produtos, eles deixariam de ser os únicos a abri-los. A empresa guardiã do software proprietário logo se empenhou em alavancar um padrão próprio visando enfraquecer a existência e adoção do ODF. O mais interessante é que a Microsoft eufemisticamente denominou seu formato de “Open XML“. Repa­re que o XML é uma linguagem aberta, criada pelo World Wide Web Consor­tium (W3C), altamente portável, que foi bem descrito na Wikipedia do seguinte modo: “não depende das plataformas de hardware ou de software, um banco de dados pode, através de uma aplicação, escrever em um arquivo XML, e um outro banco distinto pode ler, então, estes mesmos dados”[2]. As­sim, para os desavisados, uma das empresas que mais cria incompatibilidades programa­das no mundo digital, teria lançado um padrão aberto.

A delegação brasileira na ISO votou contra a definição do Open XML como norma internacional. O coordenador do ODF no Brasil, Jomar Silva, escreveu 42 objeções técnicas sobre o padrão da Microsoft, a maioria sem resposta até hoje. O Brasil conseguiu obstruir a aprovação do Open XML por seis meses, mas diversos países mudaram seu voto depois de uma grande pressão exercida pela Microsoft sobre diversos governos. Todavia, não sabíamos da história toda. Em meio aos diversos telegramas entre as embai­xadas norte-americanas e o governo de Washington vazados e divulgados pelo Wikileaks, um deles tratava da guerra dos formatos[3].

Na verdade todos já desconfiavam que a Microsoft atua e atuava em consonância com o governo norte-americano. O presidente da Microsoft no Brasil, Michel Levy, procurou a diplomacia norte-americana, no final de 2007, para atacar a posição do governo brasileiro, apontada como uma agressão à propriedade intelectual, e fruto de uma postura completamente antiameri­ca­na. O presidente da Microsoft pedia intervenção do governo norte-ameri­ca­no para barrar a ação contra o Open XML (que, no telegrama, estava grafado como XML, um erro claro do diplomata, devido ao eufemismo da própria Microsoft). O trecho do telegrama é esclarecedor:


De acordo com Levy, o Itamaraty tem pressionado a Agência Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, para adotar uma postura mais agressiva contra o uso do XML como um dos dois padrões possíveis, juntamente com ODF no Brasil. Além disso, Levy afirmou que ele está na posse de cartas enviadas pelo Itamaraty a vários governos estrangeiros pedindo que trabalhem em conjunto para suportar apenas o ODF, que possui código aberto como o padrão internacional.

A Microsoft atuou junto com o governo norte-americano para inverter a posição de muitos países que consideravam equivocada a existência de dois padrões ISO para formatos de documentos digitais. O ODF já era norma ISO. O peso de Washington e o lobby da gigante do mundo industrial venceram a batalha e o Open XML foi aprovado, mas o ODF não parou de avançar.

A educação e os formatos

Um educador não tem completa autonomia para decidir sobre sua própria criação se utilizou formatos proprietários. Se uma escola produziu suas animações em Flash terá que, necessariamente, utilizar os produtos da Adobe para visualizar o que foi produzido. Além disso, o formato de arquivamento em questão não permite que o trabalho realizado possa ser recortado, ampliado, remixado, recombinado e nem melhorado. Existem formatos que excluem as práticas culturais recombinantes sendo completamente impró­prios para sua utilização no processo educacional, principalmente se a escola pretende produzir Recursos Educacionais Abertos (REA).

O PDF é um formato de arquivo aberto, ou seja, qualquer desen­volvedor tem acesso às suas especificações e pode escrever aplicativos que leiam o seu padrão. Entretanto, se um grupo de educadores lança seu mate­rial didático em PDF, este material não poderá ser retrabalhado, embora possa ser lido por diversos softwares. O formato PDF não permite edição, torna difícil a cópia de trechos e, por fim, dificulta sua utilização direta para se criar uma obra derivada.

Desse modo, os educadores que gostariam de complementar o material didático e adequá-lo à sua realidade local ficam obrigados a digitar nova­mente o texto distribuído em PDF, ou ficar “copiando e colando” pequenas partes dele em um outro texto com formato de arquivo editável. Nesse sentido, apesar de muitos educadores liberarem seus textos em uma das diver­sas licenças copyleft, o formato da liberação pode bloquear efetivamente o uso pleno da criação.

Avery Lee, um desenvolvedor de software livre, em meados do ano 2000, recebeu um aviso do advogado da Microsoft de que seu programa de edição de vídeo não poderia suportar o formato ASF. Lee foi informado que, embora tivesse feito engenharia reversa, a implementação do formato era ilegal, uma vez que infringia patentes da Microsoft. O formato ASF é conhecido como arquivo recipiente de áudio e vídeo. Os formatos pro­prietários podem conter patentes, o que impede completamente o seu uso livre e dá ao dono do formato o poder de bloquear sua utilização para determinadas finalidades.

Para ser aberto um formato precisa ser baseado em padrões abertos. Deve ainda ser desenvolvido de forma transparente e de modo coletivo, tal como ocorre, por exemplo, com o HTML 5. As especificações de um formato aberto devem estar documentadas e ser acessíveis para todos os interessados. Por fim, um formato aberto deve ser mantido independente de qualquer pro­duto e não pode ter qualquer extensão proprietária que impeça seu uso livre.

A garantia do livre fluxo do conhecimento, bem como os esforços para assegurar o compartilhamento dos recursos educacionais, para avançar a construção do comum e para expandir a diversidade cultural impulsionam os formatos abertos, pois sua característica é de enfrentamento das práticas de aprisio­na­mento lógico, cerceamento e controle da criatividade.

 

Referências

BALKIN, J. M. Cultural software: a theory of ideology. New Haven & London: Yale University Press, 1998. Disponível em: http://www.yale.edu/lawweb/jbalkin/cs/index.htm Acesso em: 05 set. 2011.
CASTELLS, M. A sociedade em rede. São Paulo: Paz e Terra, 1999(A era da informação: economia, sociedade e cultura; v. 1)
CORSANI, A. Elementos de uma ruptura: a hipoótese do capitalismo cognitivo. In: GALVÃO,P.; SILVA, G.; COCCO, G. (Org.) Capitalismo Cognitivo: trabalho, redes e inovação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003.
DELEUZE, G. Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle. In: DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Editora 34, 1992.
JOBS,Steve. Thoughts on Flash. April, 2010. Disponível em: http://www.apple.com/hotnews/thoughts-on-flash/ Acesso em: 20/11/2011.
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.
MANOVICH, L. Software takes command. Disponível em: http://lab.softwarestudies.com/2008/11/softbook.html, 2008. Acesso em: 10/02/2012.
MICROSOFT patents ASF media file format, stops reverse engineering. Posted 5 Jun 2000. Online: http://www.advogato.org/article/101.html Acesso em: 25/03/2012.
SHAPIRO, C.; VARIAN, H. R. Economia da informação: como os princípios econômicos se aplicam a era da Internet. Rio de Janeiro: Campus, 1999.
SILVEIRA, S. A. Guerra de formatos. Select, São Paulo, p. 118 – 119, dez., 2011.
SOUZA SANTOS, B. (Org.). A globalização e as ciências sociais. São Paulo: Cortez, 2002.
Pesquisa sobre o Uso das Tecnologias da Informação e da Comunicação no Brasil: TIC Domicílios e TIC Empresas 2010. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2010.
WIENER, N. Cybernetics: or control and communication in the animal and the machine. Paris:(Hermann & Cie; Camb. Mass.:MIT Press, 1961

 

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Sergio Amadeu da Silveira

Doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo. É professor-adjunto da Universidade Federal do ABC. Membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, eleito como representante do terceiro setor. Foi presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (2003-2005) e coordenou a implantação dos Telecentros do Município de São Paulo (2001-2003). Autor de diversas publicações sobre cultura digital, propriedade imaterial e práticas colaborativas na Internet. É ativista do software livre. samadeu@gmail.com | samadeu.wordpress.com | @samadeu

  1. [1] http://www.apple.com/hotnews/thoughts-on-flash
  2. [2] http://pt.wikipedia.org/wiki/XML, acesso em 17.5.12.
  3. [3] Veja em http://www.cablegatesearch.net/cable.php?id=07SAOPAULO1001.

                                                      

6 comments on “Formatos abertos

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