Apresentação

Bianca Santana, Carolina Rossini e Nelson De Luca Pretto

    



O direito à educação universalizada é defendido por todas e todos, pelo mundo afora. Também nos parece ser senso comum defender uma edu­ca­ção de qualidade, por mais que o tema seja bastante contro­verso. O que é qualidade na educação? Pesquisas no campo educacional são realizadas em todas as partes do mundo, sempre em busca de compreender como as pessoas aprendem e como é possível ensiná-las. São diversas as concepções de educação que, ao longo da história, foram desenvolvidas com esse propósito. O desafio é enorme e, por conta da complexidade da questão, não conseguimos vislumbrar uma solução única para a problemática. Pensar a educação – e a escola, em particular – é muito mais, muito mais mesmo! –, do que pensar apenas nas teorias educacionais. Elas são importantes, mas te­mos certeza de que sozinhas não dão conta do tamanho e da complexidade do desafio.

Um primeiro olhar para a questão já nos leva a perguntar – e isso é feito em alguns capítulos deste livro – sobre a própria importância da edu­cação escolar, também chamada de educação formal, aquela que acontece com um controle do Estado e com certificação final. Seguramente, a crítica ao sistema escolar passa pelo fato de que, em muitos casos, propõe soluções únicas, padronizadas e simples. Justamente por conta disso, aqui neste livro, pro­curamos compreender as diversas e complementares maneiras e possi­bi­lidades de se pensar a educação. Queremos apresentar algumas reflexões de pesquisadores que pensam de forma ampla e, muitas vezes, sobre temas ainda novos ao main stream da teoria educacional. Sendo assim, buscamos com o livro fortalecer o diálogo no Brasil sobre os Recursos Educacionais Abertos (REA) [1] e sua importância na sociedade da informação.

Para isso fazer precisamos navegar por diversos temas, sendo um deles a presença das chamadas tecnologias digitais de informação e comunicação na sociedade contemporânea. Tecnologias essas que contribuíram para a consolidação da chamada sociedade em rede (CASTELLS, 1996), sendo inú­meros os exemplos de sua apropriação pela sociedade, especialmente aquelas que permitem a crescente mobilidade e que, notadamente em países do norte do mundo (mas não apenas nesses) têm sido levadas para dentro da escola, transformado a própria concepção do espaço escolar. Em países como o Brasil, as tecnologias também chegam nas escolas mas, muitas vezes, por pressão única e exclusiva da indústria de equipamentos, ou por via de políticas públicas (muitas vezes, também pressionadas pela mesma indústria!), sem um verdadeiro envolvimento da comunidade educacional, mais especificamente dos professores.

A internet no Brasil foi implementada a partir de uma política pública que compreendeu a importância de fortalecê-la no âmbito acadêmico e, simul­taneamente, deu espaço para seu uso social por grupos comunitários, or­ganizados ou não, como foi o histórico caso do IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), responsável pela conexão de centenas de ONGs e grupos sociais, ainda nos idos da implementação a rede no país. Em 1985, o Projeto Internet também acompanhou o movimento mundial e abriu aqui suas portas para o acesso comercial. Houve uma explosão de conexão, mesmo com a identificação clara da necessidade de políticas mais efetivas visando de superar o internacionalmente conhecido apartheid digital (digital divide).

A internet no Brasil já nasce grande, como podemos perceber pelo interessante relato de um histórico participante do movimento internet no Brasil, Carlos A. Afonso um dos integrantes à época do mesmo IBASE já referido anteriormente, em recente artigo (CGI.br: história e desafios atuais) na revista poliTICs. Para ele, o Comitê Gestor da Internet (CGI), instalado em maio de 1995, já nasceu “[...] com uma missão bem mais ampla que o simples registro de nomes de domínio e distribuição de números IP”. (2011, p. 17) Segundo Carlos Afonso (2011, p. 17), a missão do CGI.br desde os seus primórdios foi o de

[...] atuar como formulador, orientador ou executor de políticas relacionadas ao desenvolvimento da Internet no país. O decreto original de criação destacava quatro campos de atuação: supervisionar o desenvolvimento dos serviços Internet; avaliar e recomendar padrões e procedimentos operacionais e técnicos; coordenar a designação de nomes de domínio ’.br’ e números IP; publicar estatísticas sobre a Internet. Os componentes técnicos e operacionais ficaram com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que em parceria com o CGI.br (por um projeto específico da fundação) organizou o sistema de distribuição e anúncio de nomes e números e passou a arrecadar os respectivos recursos.

Apesar de termos a internet administrada de forma aberta e demo­crática pelo trabalho do CGI.br, há a urgente demanda pela imple­men­tação de um backbone nacional de alta velocidade, que dê conta dos atuais desafios em todas as áreas do conhecimento. São necessárias políticas públi­cas que atuem de forma coordenada com diversos ministérios e isso, lamen­tavelmente, não temos visto acontecer. Não vamos, nesta apresentação, nos alongar sobre a necessidade de um Plano Nacional de Banda Larga no Brasil (PNBL), que garanta a conexão em alta velocidade para todos os cidadãos em qualquer lugar do país. O PNBL é urgente e fundamental para aquilo que preconizamos em praticamente todos os artigos deste livro. Só para se ter uma ideia, alguns números podem ser observados. Em relação à internet nas escolas, o Plano Nacional de Banda Larga (PNBL) tenta cumprir suas metas e o Programa Banda Larga nas Escolas do Minis­tério da Educação (MEC) tem até 2015 para atender todas as escolas urbanas (cerca de 55 mil) e as quase 87 mil escolas rurais até 2015. Atualmente, 59.379 escolas públicas brasileiras já estão conectadas com banda larga[2], o que nossas pesquisas em desenvolvimento estão mos­trando serem abso­lutamente insuficientes para a efetivação dos projetos que aqui discutimos.

Pois foi este CGI.br que, em uma iniciativa interessante como formu­lador de políticas, fomentador de pesquisa e divulgação de resultados de pes­quisas, abriu edital para apoio de publicações que relacionassem a internet com diversos campos da saber. Este livro enquadrou-se nesta política e agora está em suas mãos e rede. Nossa tarefa, com esta publicação, é refletir sobre as relações entre as tecnologias digitais e a educação, e novas formas de pen­sar a própria educação no seio da sociedade informacional. Para tanto, preci­samos nos debruçar sobre a formação de professores, pensar qual a infra­es­tru­tura ne­ces­sária para a ligação da escola com o mundo, refletir sobre o uso das tec­nologias pelos alunos, e também em levar à escola, com ênfase, o con­ceito de coautoria e criação colaborativa. No caso daqueles que são chamados países em de­sen­­vol­vimento a problemática é mais grave, pois as políticas de banda larga e, mui­tas vezes, a implementação dessas políticas deixam muito a desejar, como já men­cio­namos.

Compreendemos que a temática dos recursos educacionais abertos tem tudo a ver com o escopo do edital. Submetemos o projeto, e o comitê avalia­dor compreendeu que tratar da produção de materiais culturais, científicos e educacionais é algo que, por um lado, tem uma importância fundamental para a educação mas, por outro, qualifica a internet brasileira ‒ se pensamos que esses materiais, licenciados de forma aberta como aqui defendemos, alimentam aquilo que poderíamos chamar de contribuição brasileira para a constituição de uma internet planetária livre e aberta, acessível a todos e todas, sem distinções nem restrições.

A partir de então, reunimos profissionais de diversas áreas, com diferentes concepções para discutir REA, tema adotado pela UNESCO desde o início dos anos 2000 como sendo estratégico para a democratização da educação em todo o mundo. Os onze artigos e cinco entrevistas que compõem este livro navegam por abordagens bastante singulares, possibilitando ao leitor construir, também ele, uma percepção bastante ampla do que sejam os recursos educacionais abertos, com as possibilidades trazidas pela ampliação do acesso à internet em todo o mundo, através de diversos dispositivos. Em alguns momentos, encontramos uma verdadeira negação da escola e a defesa de um educação totalmente fora dos seus muros. Em outros, um olhar para dentro das paredes da sala de aula. Em outros ainda, uma investigação das políticas públicas que associam a educação com a cultura, com a comuni­cação, com o desenvolvimento industrial, científicos e tecnológico.

Essa diversidade de abordagens e de escritos reforça a nossa concepção de que a educação, por sua própria natureza, é plural. Políticas, programas, projetos e materiais educacionais que se fechem em si mesmos estão, no nosso compreender, fadados ao fracasso. Queremos uma escola, cujos muros possam ser assaltados pela diversidade de olhares e de percepções que permitam, de forma quem sabe até contraditória, pensar na ausência do muro e da escola. Queremos pensar grande, pensar na possibilidade de um mundo que produza conhecimento de forma intensa, rico pelo próprio ato de produzir, estabelecendo um efetivo e rico diálogo entre o conhecimento produzido historicamente pela humanidade e o conhecimento emanado de cada cidadão na sua relação com o outro e com o próprio conhecimento.

Aqui entra de forma decisiva o conceito de recursos educacionais abertos. É aberto porque é livre, como liberdade, é aberto porque permitem outros voos e outras produções, é aberto porque permite a remixagem e, em última instância, é aberto porque entende a diferença como um valor a ser enaltecido e não simplesmente aceito

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ou considerado.

Esse livro, licenciado, como não podia deixar de ser, de forma aberta, de tal maneira que você pode utilizá-lo de diferentes formas, é para ser consumido e apropriado. Literalmente. É para ser remixado, reescrito. Por isso ele é um livro impresso, com capítulos que se sucedem. É um livro digital, que pode ser lido em qualquer ordem. É um site na internet[3], onde ele está disponível completo e em partes, em formato fechado, com cara de livro, e também com o seu código fonte disponível, em Open Document Format (odt), para que você possa dele fazer uso pleno. É um site que também é uma rede, um rede aberta de discussão e é, em última instância, uma rede que é um movimento: o movimento REA Brasil.

Venha participar conosco.

Esse é um livro REA sobre REA.

Boas leituras e boas remixagens.

São Paulo, San Francisco e Salvador, maio de 2012.

  1. [1] Diversas definições de REA aparecem nos artigos deste livro. Todas trazem na essência a definição publicada em 2011 pela Unesco e a Commonwealth of Learning (COL), que teve a colaboração de membros a comunidade brasileira de REA em sua elaboração: “REA são materiais de ensino, aprendizado e pesquisa, em qualquer suporte ou mídia, que estão sob domínio público, ou estão licenciados de maneira aberta, permitindo que sejam utilizados ou adaptados por terceiros. O uso de formatos técnicos abertos facilita o acesso e reuso potencial dos recursos publicados digitalmente. Recursos educacionais abertos podem incluir cursos completos, partes de cursos, módulos, livros didáticos, artigos de pesquisa, vídeos, testes, software, e qualquer outra ferramenta, material ou técnica que possa apoiar o acesso ao conhecimento.”
  2. [2] http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=823&id=15808&option=com_content&view=article
  3. [3] O endereço para o site é http://www.livrorea.net.br

                                                      

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