A experiência REA em um colégio tradicional da cidade de São Paulo

Valdenice Minatel e Verônica Cannata (Entrevista a Paulo Darcie)

    



Vestir a camisa dos Recursos Educacionais Abertos era o que faltava ao Colégio Dante Alighieri. Por princípio, publicizar os conteúdos desenvolvidos por seus docentes e até alunos já era uma realidade. Sob a bandeira REA e a gestão do Departamento de Tecnologia Educacional, ini­cia­tivas que pareciam pontuais e isoladas, como oficinas e revistas produ­zidas por alunos, agora convergem mais claramente para a consolidação de um ambiente de educação digital e, acima de tudo, colaborativo. Na conversa aqui registrada, a coordenadora do departamento, Valdenice Minatel, e a orien­tadora do projeto Dante em Foco, Verônica Cannata, contam sobre as dificuldades de se quebrar paradigmas e de fazer o compartilhamento voltar a ter papel de destaque na dinâmica da educação.

Como foi o início do projeto REA Dante?

Valdenice: Tomamos conhecimento do movimento REA em 2010, por meio da Marcella Chartier, que foi instrutora na Oficina de Jornalismo do Dante. Quando tivemos o primeiro contato com o conceito, ele logo teve uma adesão muito grande no Departamento de Tecnologia Educacional. Nós gostamos dessa ideia de democratização de conteúdo, o que sempre foi uma das nossas linhas de trabalho. Eu digo que já fazíamos REA sem saber, sem esse nome, pois sempre nos esforçamos para publicar, mostrar a autoria dos trabalhos feitos aqui. O Dante, por ser um colégio de referência, sempre abriu as portas para visita de gente de outras escolas, educadores e estudantes que querem saber o que e como fazemos.

Em junho de 2011 participamos do Seminário Material Didático Digi­tal: Recursos Educacionais Abertos e Qualidade na Educação, na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), e tomamos contato com outras instituições que também estão tentando desenvolver projetos REA. Trocamos experi­ên­cias e, de lá para cá, estamos trabalhando para encontrar o melhor caminho. No final do ano passado, tivemos contato com a Priscila Gonsales[1], do Ins­tituto EducaDigital, e estamos tentando chegar a uma proposta de que rumo tomar. Acredito que, assim como há o Banco Internacional de Objetos de Aprendizagem[2]. podemos fazer nosso portal de conteúdo para aprendiza­gem aqui do colégio. Eu gostaria de focar nessa linha, para que não só professores pudessem publicar conteúdo, mas também alunos e ex-alunos do Dante – que tenham ou não alguma ligação com o colégio – encontrem aqui uma forma mais fácil de divulgar conteúdo.

Foi preciso alguma grande mudança estrutural para a implantação de REA Dante?

Valdenice: Já tínhamos uma estrutura consolidada no departamento, o que nos permitiu fazer o portal sem grandes modificações. As mudanças foram mais a respeito de mobilização, articulação com os professores e articulações dentro do próprio departamento. Demos os primeiros passos criando o portal REA Dante, para armazenar o conteúdo produzido. É um portal modesto, que começou publicando os materiais que já tínhamos, como os roteiros da Oficina de Jornalismo e de Games do Dante em Foco[3]. Fomos juntando as coisas. Já tínhamos alguns roteiros de aula de 6º, 7º e 8º anos, e pensamos que eles poderiam ser um bom conteúdo REA, para que outras escolas pudessem tomar como base.

Quais os principais obstáculos para a consolidação dessa cultura em um colégio?

Valdenice: Queremos trabalhar sempre dentro da legalidade. Isso nos preo­cupa. Sempre que se fala em publicação de conteúdo na internet, ainda mais quando se envolve o nome de uma escola grande e de visibilidade, não se pode fazer nada que não esteja dentro de uma ética no que diz respeito à propri­­edade intelectual. Isso ainda está um pouco nebuloso e é preciso ter muita clareza antes de dar os próximos passos, para não queimar nenhuma etapa.

Verônica: É preciso ter segurança para a instituição. Trata-se de um colégio de cem anos, tradicional. Ele tem um departamento que aposta nesse movi­mento, mas o colégio é maior do que o departamento.

Que cuidados legais são tomados ao publicar conteúdos?

Valdenice: Nós licenciamos tudo em Creative Commons, mas isso garante que o material não vai ser usado com fins comerciais? Tudo que for produzido pode ser REA? Nós queríamos que o material desenvolvido pelos alunos fosse para a rede, mas há alguma incerteza se isso pode ou não ser publicado, pois não se trata de objeto de aprendizagem, e sim algo feito por alunos em aula. Seria preciso colocar no contrato de matrícula e deixar claro para os pais que há a hipótese de publicação desses conteúdos. Estamos mexendo em uma questão maior do que o âmbito da sala de aula. Quanto aos professores, no momento em que pedimos para que assinem um documento concordando em ceder parte de seus direitos, precisamos esclarecer exatamente o que é REA, e convencê-los de que é um movimento interessante. Se isso não for tratado com cuidado, há o risco de se perder a essência. Não basta o departamento de tecnologia estar esclarecido. Todos os outros envolvidos também devem estar, caso contrário vamos agir como Don Quixote.

E é difícil convencer professores a entrar nesse barco?

Verônica: O que estamos tentando é mudar a cultura dos professores. Quando damos formação a eles, como no caso da formação de lousa digital, estamos incentivando a criar um banco de aulas, para que possam divulgar e compar­tilhar sua produção com mais facilidade. Em geral, o professor faz pesquisa e monta a aula, mas não compartilha o que faz, pois tem a ideia de que aquilo que criou é dele. Conversamos e começamos um trabalho de base, para que seja possível mudar essa cultura, rumo à cultura do compartilhamento, de contribuição para uma rede maior. Incentivamos e, felizmente, já vemos professores postando aulas no YouTube por iniciativa própria. É preciso criar sinergia entre a própria comunidade docente. De fato, a partilha não é algo comum na vivência das pessoas, precisa passar a fazer sentido para os professores.

Valdenice: O professor ainda se questiona “eu posso ser autor? mas o que eu faço é tão simples, isso é digno?”. E a resposta é sim! A valorização da produção, do protagonismo do professor, precisa ser resgatada. É preciso ficar claro que a possibilidade não é restrita a algumas cabeças iluminadas, pois todos que se dedicarem podem produzir conteúdos interessantes e contribuir com o avanço da educação, colocando online um conteúdo que, de alguma forma, possa ser transformado em conhecimento. O REA é um movimento forte suficiente para mudar paradigmas, mas ele não pode ser visto como mais uma onda da internet, deve ser associado à educação.

Outras escolas e regiões do Brasil estariam preparadas para aderir ao movimento REA?

Valdenice: Como uma grande onda, talvez não, mas com ações locais, sim. Se todos acharem que é impossível e não colocarem a mão na massa, nada vai acontecer. Nós ainda temos muito que melhorar aqui no colégio, mas é preciso começar. Estivemos na Febrace[4], onde vimos projetos impressio­nan­tes de alunos de educação básica que se comparam

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a projetos de mestrado e doutorado. São alunos produzindo com qualidade e professores orientando com qualidade. Há muita vida inteligente e o REA é uma grande porta para se descobrir isso.

Projetos de lei nesse sentido podem ajudar ou é uma questão apenas de iniciativas pontuais?

Valdenice: As duas coisas. É válido ter uma política pública que determine que a rede de educação básica seja responsável também por contribuir com conteúdo, em vez de apenas receber material elaborado pelas secretarias de educação. Uma lei institucionalizaria o REA e a gente precisa de fato disso. A cultura brasileira ainda funciona assim, é muito pautada pela obrigação: se virar lei, “então vamos fazer”. Além disso, é preciso ter polos nas escolas. Ao trabalhar com a área tecnológica, é necessário ter alguém que anime, que dê a alma para a coisa. Se não houver incentivo de alguém que busque e promova, a ação acaba pulverizada, cai na rotina, fica muito igual e logo deixa de existir. Falta ainda esclarecimento. REA é uma onda global, mas ainda é restrita a pequenos grupos. No Brasil ainda não vejo políticas públicas – a não ser o Projeto Folhas, do Paraná. Mesmo aqui em São Paulo, depois da ação na Assem­bleia Legislativa do estado de São Paulo (Alesp), ainda não vejo resul­tados práticos.

Verônica: Ainda é um sonho, mas o ideal seria que, ao se formarem os professores na universidade, eles já viessem com essa postura, já tivessem uma disciplina de REA. Deveriam entender que vão trabalhar de forma cola­bo­rativa. A mentalidade já mudaria. O professor hoje acha que sua produção é dele, não divide um plano de aula com o colega ao lado. A formação inicial do professor não está alinhada às necessidades que temos hoje. Estamos fa­lando de REA aqui nessa ponta, mas a universidade mal está mexendo nisso. Especialmente na licenciatura, é necessário que se assuma o REA como uma proposta educacional, e não de uso da internet.

Como mensurar o sucesso, a melhora no nível de aprendizado dos alunos, após a adoção de projetos como esse?

Valdenice: Ainda não construímos uma régua para isso. Desenvolver alguma métrica é necessário para que os professores e escolas possam ter feedback, parâmetros para se autoavaliarem, estipularem novas metas e para, de fato, a coisa crescer. Mas não consigo ainda enxergar algo assim. Não é o tamanho da produção, a quantidade de arquivos que devemos olhar, e sim o cenário mais amplo, a interação dos materiais com as demandas da educação. Não é uma tarefa simples.

  1. [1] Veja o capítulo Aberturas e rupturas na formação de professores, de autoria de Priscila Gonsales
  2. [2] Trata-se de um banco de materiais didáticos compilados e organizados pelo MEC. Os mais de 16 mil arquivos de conteúdo são divididos por níveis de ensino (infantil, fundamental, médio, profissional e superior), disciplina e assunto. São postados planos de aula, vídeo, áudio, imagens, mapas, animações e o que mais os autores julgarem útil para o aprendizado daquela disciplina. O conteúdo é aberto ao público para download, e na descrição de cada recurso é possível se informar quanto à sua licença. Mais informações em http://www.objetoseducacionais.mec.gov.br
  3. [3] É o projeto que mantém os blogs Dante em Foco e Dante Catraca. No primeiro, os alunos do ensino médio participam de oficinas e fazem a cobertura dos principais eventos internos e externos do colégio, criando conteúdos multimídia sobre os assuntos. No segundo, alunos dividem experiências e dicas de programas culturais na região da escola que custem até R$ 10.
  4. [4] A Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace) tem o objetivo de despertar em alunos do ensino fundamental e médio o interesse pela pesquisa científica. Sua décima edição foi realizada em março de 2012, na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). Durante os três dias de feira, 725 projetos de alunos de 8º e 9º anos, tanto de escolas públicas como privadas, concorreram a prêmios e bolsas de iniciação científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

                                                      

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